Apesar de comum e praticada desde os primórdios da história da humanidade, a violência doméstica contra a criança não é nem ao menos quantificada no Brasil em toda a sua dimensão. Segundo o pediatra paulista Mário Santoro Júnior, não há uma estatística sobre o número de casos. De acordo com ele, apenas 10% das crianças que sofrem maus- tratos são tratadas como vítimas de violência.

Diretor da Associação Latino-Americana de Pediatria e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Mário Santoro Júnior participou ontem do VIII Congresso Paranaense de Pediatria, que termina hoje em Londrina. Baseado em cálculos da quantidade de habitantes do Brasil na faixa etária correspondente à infância e à adolescência, o médico identifica 560 mil casos de violência cometida pela família contra a criança. ''No entanto, apenas 10% (56 mil) são notificados'', explica.

Para se ter a dimensão real da violência doméstica contra a criança, é preciso que os profissionais da área de saúde estejam capacitados para identificar os casos. A capacitação é igualmente importante para que seja feita a abordagem adequada da vítima e do agressor. Essa abordagem deve ser feita através da conversa com os pais e com a criança. Como raramente um pai ou uma mãe irá dizer que agrediu seu filho, o profissional de saúde deve ter perspicácia na realização da história clínica da criança, na identificação de incongruências do relato dos pais.

Nesse aspecto, Mário Santoro Júnior alerta para um ponto importante: a realização do diagnóstico diferencial. Um problema sério são as diversas doenças que apresentam características que podem se confundir com maus-tratos. O profissional tem que estar capacitado para fazer a identificação correta e não incorrer em um erro grave: colocar o responsável pela criança como agressor, quando ele não for.

Com base em pesquisas realizadas com médicos em determinadas especialidades, Mário Santoro Júnior verificou a dificuldade em fazer o diagnóstico diferencial e a partir de então defende uma mudança de currículo. ''A capacitação do profissional deve fazer parte dos currículos das especialidades'', afirma.

No entanto, hoje só é trabalhada através de educação continuada promovida pela Sociedade Brasileira de Pediatria em suas publicações e com inclusão do tema em jornadas; ou em conjunto com o Ministério de Justiça e o Ministério da Sa© úde na elaboração de cartilhas.
A capacitação é fundamental também para a abordagem adequada do agressor. Segundo o médico, quando uma equipe de saúde se depara com um caso de maus-tratos cometido contra uma criança a sua reação é de ''matar'' o agressor. No entanto, a família também precisa ser tratada para que a criança seja devolvida a ela. ''A atitude dos profissionais de saúde deve ser de acolhimento da vítima e do agressor'', explica o médico.

Mário Santoro Júnior afirma que falta uma política pública nacional que vise a cura e a prevenção da violência doméstica contra a criança. Hoje existem apenas algumas ações isoladas no País que trabalham a capacitação dos profissionais para esse tipo de atendimento.

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