A comunidade da Escola Municipal América Sabino Coimbra, no Residencial Vista Bela, zona norte de Londrina, participou de um encontro sobre violência contra a mulher. A ação, realizada na manhã desta quinta-feira (21), teve a participação do Poder Judiciário e da Polícia Militar. A ação faz parte da campanha Agosto Lilás, de combate à violência contra a mulher,

A juíza titular do 2° Juizado de Violência Doméstico e Familiar, Adriana Carrilho Danna Persiani, explica que o principal objetivo do encontro é divulgar toda a rede de apoio para que as vítimas possam "quebrar o ciclo". "É uma conscientização para elas saberem que não estão sozinhas", reforça.

A juíza afirma que é fundamental entender os sinais de violência, que vai muito além da agressão física. Antes de chegar a uma violência física, o ciclo começa com xingamentos, ofensas e humilhações. "Um beliscão é uma violência, um tapa no rosto é uma violência, um empurrão é uma violência e pode desencadear até mesmo uma lesão", detalha.

Além disso, ela cita também a violência patrimonial e o domínio do companheiro em relação à vítima, o que vem através do controle do dinheiro, da roupa e do que ela pode ou não fazer. "Ele quer que ela esteja sempre sob o controle dele", explica, complementando que o homem tenta fazer com que a mulher se sinta mal e permaneça na relação.

Em muitos casos também, Persiani aponta que o uso de drogas e o consumo do álcool são usados como justificativa para as agressões. "No outro dia, ele manda presente, pede desculpas", afirma, ressaltando que esse período é chamado de 'lua de mel' dentro do ciclo de violência.

Com o passar dos dias, as agressões se repetem e se agravam, podendo chegar ao extremo, que é o feminicídio. Neste ano, entre janeiro e junho, o Paraná já registrou 179 casos de feminicídio, sendo 105 tentados e 74 consumados. Na prática, o número representa quase um caso de feminicídio por dia.

Denúncia é o primeiro passo

A denúncia é o primeiro passo para romper o ciclo de violência. A juíza explica que muitas conseguem sair do ciclo com apoio familiar - elas saem da casa que dividiam com o agressor e voltam a morar com a família. Por outro lado, por dependência financeira, muitas permanecem no relacionamento.

Em Londrina, o CAM (Centro de Referência de Atendimento à Mulher) e a Casa Abrigo, são serviços municipais que prestam apoio e acolhem mulheres vítimas de violência e seus filhos.

A juíza ressalta que o encontro realizado nas escolas também visa que a comunidade escolar sirva de multiplicadora de informações e também esteja preparada para entender o relato de crianças que convivem com a violência doméstica.

Relatos de crianças

A escola do Vista Bela recebe quase 1,2 mil estudantes, de acordo com a vice-diretora Franciele Oliveira Zabine. Segundo ela, a equipe já ouviu relatos de crianças durante as rodas de conversas envolvendo casos de violência contra elas ou familiares. Um dos casos mais marcantes é o de uma mãe mantida em cárcere privado.

Além disso, situações de abuso ou de falta de alimentos em casa também já foram percebidos pela comunidade, seja por relatos como por desenhos ou produções de texto.

Segundo ela, eventos como esse ajudam a equipe a se preparar ainda mais para entender os sinais de violência que, em muitos casos, são sutis. A partir do momento em que eles identificam um possível caso de violência, a escola faz o encaminhamento necessários.

“É um tema que precisa ser mais disseminado, tanto nas escolas quanto em grupos de bairro”, afirma.

Imagem ilustrativa da imagem Violência contra a mulher é debatida com comunidade escolar
| Foto: Jéssica Sabbadini

Ligações disfarçadas para a PM

A soldado Kelly Vanessa da Mota Castagnaro, da Patrulha Maria da Penha do 5° BPM (Batalhão de Polícia Militar), explica que a equipe vê no dia a dia a resistência das mulheres em denunciar e buscar ajuda, principalmente por dependência emocional e financeira, o que dificulta o rompimento do ciclo de violência.

Com os diversos casos divulgados na mídia de mulheres que ligaram para a polícia e pediram por pizza ou algum medicamento, na intenção de camuflar a denúncia para o agressor, ela citou um exemplo recente que o 5° BPM recebeu.

No telefonema, a vítima chamou o policial de "amiga" e perguntou quando ela passaria na casa dela. Nesse momento, o agente entendeu do que se tratava e acionou a viatura. Em outra, a mulher pediu por um frete.

A soldado Kelly reforça que a violência e o feminicídio acontecem com mulheres de qualquer idade, classe social e escolarização e que não casos não são registrados apenas nas periferias.

Durante o encontro foi apresentado também o histórico Lei Maria da Penha (n° 11.340/2006), que completa 19 anos neste mês de agosto. A Lei trata da violência doméstica e familiar, envolvendo casos de agressão entre mães, filhos, sogros, sogras, ou seja, qualquer pessoa que faz parte do convívio familiar, ainda que não vivam sob o mesmo teto.

Como denunciar

Em casos de violência, as mulheres podem ligar para a Patrulha Maria da Penha da Guarda Municipal, no 153, ou para a Polícia Militar no 190. O contato também pode ser feito na Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres no 3378-0113.

Em Londrina, o CAM oferece serviço social, psicológico e jurídico para as mulheres acima de 18 anos em situação de violência doméstica e familiar. O CAM fica na Avenida Santos Dumont, n° 408, e funciona das 8h às 18h. O telefone para contato é o 3378-0132.

Em casos mais graves, em que a vida das mulheres está em risco, é feito o encaminhamento para a Casa Abrigo Canto de Dália, que acolhe as vítimas e seus filhos ou dependentes menores de 18 anos.

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