Londrina

Arquivo Folha




Histórias de agressãoA estudante Silmeri Rossi: ‘A maioria destas mulheres sofre violência no início do casamento. Elas se sentem diminuídas e desamparadas e não têm noção dos seus direitos’

Loucas, abnegadas, religiosas, masoquistas. Afinal, quem e como são estas mulheres que passam a vida dormindo com o inimigo?
Segundo a formanda do curso de Serviço Social Silmeri Patrícia Rossi, a mulher londrinense vítima de violência tem entre 30 e 40 anos (68%), é casada ou vive em concubinato (83%), trabalha fora como autônoma ou em profissões operacionais (78%). Cerca de 10% das vítimas de violência que denunciam a agressão têm nível superior e 10% têm 2º grau completo.
Esses e outros números fazem parte do trabalho de conclusão de curso de Silmeri Rossi, que se propôs a fazer um perfil do trabalho da Delegacia da Mulher em Londrina. O Serviço Social na Delegacia da Mulher de Londrina (Proposta de Implantação) é o tema que serviu de ponto de partida para uma avaliação do público, do tipo de demanda e dos casos de violência que chegam à delegacia da Cidade.
Durante dois anos, a estudante levantou 250 boletins de ocorrência e acompanhou o atendimento feito na delegacia. Entrevistou vítimas e as policiais que fazem o atendimento. Apurou, entre outras coisas, que apesar da divulgada libertação da mulher, a londrinense continua presa a moldes de conduta de submissão, dependência afetiva e financeira.
Em Londrina, os agressores são profissionais autônomos ou empregados operacionais (77%). Não têm o segundo grau completo. Apenas 10% terminaram 2º grau e 4% possuem nível superior. Em 80% dos casos há lesões corporais (ferimentos de média e alta gravidade).
Das agressões, 10% são caracterizadas como lesão corporal - hematomas e escoriações leves - e 10% são referentes a calúnia e difamação (atentados contra a auto-estima). Entre as calúnias e difamações estão incluídas as denúncias de ameaças de morte (50%).
Silmeri Rossi explica que Londrina oferece poucas alternativas à mulher vítima de violência: O Centro de Atendimento à Mulher (CAM) e a Delegacia da Mulher. A precariedade do serviço de assistência, avalia, fez com que a Delegacia da Mulher se tornasse ponto de referência.
‘‘Até pouco tempo atrás elas não tinham outro recurso e a delegacia se consolidou como lugar onde procurar auxílio e informação’’, argumenta. Em seu trabalho, ela defende que o Estado implante o serviço social na Delegacia da Mulher de Londrina para atender a demanda por apoio e orientação.
‘‘Muitas mulheres que procuram a delegacia não querem fazer denúncia contra o parceiro, nem procuram encaminhamento jurídico. Buscam alternativas que um profissional de serviço social poderia agilizar’’, defende. Esse tipo de atendimento, diz, sobrecarrega a equipe de trabalho da delegacia, que não tem tempo nem preparo adequado para atender a esse tipo de demanda. A situação prejudica o trabalho das policiais, que não têm tempo de se dedicar às investigações e encaminhamentos pertinentes.
O assistente social, acrescenta, já faz parte dos quadros de funcionários das delegacias da mulher de São Paulo e Curitiba, com ótimos resultados. Na proposta de implantação do projeto, Silmeri coloca a importância de um trabalho global que atenda a mulher vítima de violência dentro do contexto social onde vive, atingindo inclusive a família.
‘‘A maioria destas mulheres sofre violência no início do casamento. Elas se sentem diminuídas e desamparadas e não têm noção dos seus direitos’’, afirma. Silmeri Rossi diz que faz parte das obrigações do Estado amparar e orientar a mulher para fazer valer seus direitos de cidadania. A estudante pretende apresentar o projeto à Secretaria Estadual de Segurança em 98.
A Delegacia da Mulher de Londrina foi criada em setembro de 1986 e até agosto do ano passado havia registrado 34 mil atendimentos. Foram 16.967 ocorrências - 55% de agressões físicas, 35% de ameaças e 10% de estupros e seduções. Renilda Ferreira França Neves, escrivã e policial há 21 anos, afirma que a delegacia chega a atender uma média de 10 ocorrências diárias, não incluindo as consultas por telefone.
A maioria dos atendimentos não resulta na elaboração de termo circunstanciado - sistema implantado em 95 para agilizar a solução da denúncia. Antes todas as denúncias eram registradas em boletins de ocorrência e investigadas, gerando processos. Com o termo circunstanciado, a vítima e o agressor são ouvidos na delegacia, assinam o termo e o documento é encaminhado diretamente para o Juizado Especial para apreciação e julgamento.
‘‘A maioria das mulheres ainda busca a denúncia como forma de inibir o agressor. Muitas não pensam em separação nem querem ver o parceiro preso’’, afirma. Nestes casos, complementa, nos limitamos a registrar a ocorrência. A escrivã elogia o trabalho de Silmeri Rossi, e diz seria importante para a delegacia contar com um profissional de Serviço Social. ‘‘Nossa rotina de atendimento é variada e abrange desde homens descontentes com o tratamento que recebem das esposas até pessoas idosas que querem se separar e exigem uma abordagem diferente.’’
A escrivã faz uma observação quanto ao trabalho da estudante. Ela essalta que os números de vítimas de violência e agressores de situação financeira média e alta não correspondem à realidade. Renilda Neves explica que o perfil da delegacia é de atendimento a um público de baixa renda.
‘‘As pessoas com mais recursos financeiros têm medo e vergonha de denunciar a violência. Preferem ocultar ou resolver o problema por outros caminhos.’’

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