Violência, armadilha que transforma mocinhos em bandidos
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sábado, 21 de maio de 2005
Luciana Pombo<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O que leva um policial a espancar uma pessoa até matá-la? Uma semana depois da morte de Jamys Smith, 20 anos, a pergunta ainda continua aparecendo nas conversas, nas cartas dos jornais, nas salas de aula.
O episódio que culminou na morte de Smith parecia mais uma ocorrência banal de fim de semana. O rapaz, que trabalhava como carregador na Ceasa, se recusou a abaixar o volume do som durante uma festa na casa onde morava, no jardim Santa Fé, Zona Leste de Londrina. Também teriam xingado a polícia. Os policiais quebraram o aparelho de som e depois agrediram Smith a pontapés. O laudo do Instituto de Criminalística diz que ele morreu por causa do rompimento do fígado, provocado pelos golpes.
A notícia chocou a cidade. Depois, as opiniões se dividiram. Alguns acham que Jamys provocou os policiais; outros, que os policiais são uns monstros. A discussão do que realmente aconteceu naquela noite, no Jardim Santa Fé, na verdade, é a tentativa de compreender porque aquilo aconteceu. Talvez, se fosse possível entender, poderia ser evitado.
A Folha foi procurar as respostas com a própria polícia, e também com especialistas que já lidam com a violência há algum tempo. A reportagem também ouviu familiares de policiais. As conclusões não são simples, nem absolutas. A vida é mais complicada do que os filmes de mocinho e bandido. No entanto, é possível apontar três fatores presentes em todas as entrevistas: o estresse a que os policiais são submetidos, a formação profissional da polícia e a impunidade.
Na opinião da esposa de um policial, o estresse é uma das causas da violência nas ruas. A causa do desgaste, segundo ela, são as humilhações sofridas dentro das corporações. ''Os oficiais não querem saber de diálogo. Só pensam em punir os praças, que muitas vezes estão com problemas de alcoolismo e necessitam de ajuda e, não, de exclusão'', ponderou.
As punições, segundo ela, apenas aumentariam as chances de novos erros e agressões. ''A saúde militar está precária, péssima. Principalmente no interior. Nada funciona. Temos que ter psicólogos, pessoas interessadas em ajudar os policiais militares'', afirma. Para ela, é preciso saber separar o joio do trigo: ''Claro que têm policiais que são problemáticos e precisam ser excluídos, como os que espancaram um rapaz até a morte em Londrina; mas tem muitos policiais que só precisam de tratamento'', garante. Segundo a esposa do policial, é preciso que a Polícia Militar tenha sensibilidade para detectar problemas de comportamento e interesse em encaminhar esses policiais para ajuda psicológica, antes que a violência chegue nas ruas.
O diretor do Instituto de Defesa dos Direitos Humanos (IDDEHA), Paulo Pedron, acrescenta a falta de preparo ao estresse. ''Eles são chamados para atuar em situações tensas. Falta preparo muitas vezes, e limites. Os limites têm que ser impostos pela sociedade e pela corporação, para evitar os abusos que estão acontecendo a toda hora'', apontou.
O tenente Marcos Abel Coltro, chefe administrativo do Serviço de Atendimento Social (SAS), disse que todos os policiais militares que enfrentam situações tensas e com morte são encaminhados para tratamento psicológico. Entretanto, a continuidade destes tratamentos depende da vontade do policial. ''O policial que está na rua acumula estresse. Se ele não tem momentos de desabafo, chega uma hora que ele não aguenta mais e explode. Por isso, sempre que um policial participa de confronto com morte de marginal, ele precisa de tratamento psicológico'', ponderou Coltro.
Os policiais podem ainda ser encaminhados para o SAS pelos comandantes das unidades ou quando admitem estar com problemas. Os casos mais comuns de atendimento são por alcoolismo, dependência química e estresse. ''Já está comprovado que a profissão de policial militar é a mais estressante das carreiras. Portanto, é necessário acompanhamento constante'', analisou. Coltro não quis revelar o número de atendimentos realizados.
Outro caso de tratamento psicológico são os policiais que se preparam para entrar para a reserva (aposentadoria). ''Eles precisam ser reintegrados à sociedade'', afirmou. Várias unidades da corporação já estariam recebendo estagiárias de psicologia para acompanhar a rotina dos policiais militares. ''A vida do policial é atípica. Ele precisa ter alguém para falar, conversar, desabafar. Ele precisa contar sobre o filho doente, sobre as necessidades financeiras. A psicóloga serve para ouvi-lo'', complementou. (Colaborou Phoenix Finardi)


