Violência - Estado é campeão em assassinatos de travestis
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sexta-feira, 12 de março de 2010
Diogo Cavazotti<Br>Equipe da Folha 
Curitiba - No mês passado, a travesti Andrielly Vogue foi baleada na BR-116, na região do bairro Tatuquara, em Curitiba. O tiro atingiu a virilha. Ela é mais três travestis utilizavam o local como ponto de prostituição quando um carro parou e efetuou os disparos. A vítima caminha com dificuldade mas se recupera bem. Em Maringá (Noroeste), outras duas travestis não tiveram a mesma sorte. Recentemente, enquanto utilizavam a Avenida Colombo para se prostituírem, foram mortas a tiros.
Estes casos engrossam a lista de assassinatos de travestis. Segundo Rafaelly Weist, presidente do Grupo Dignidade, organização que luta pelo direito dos homossexuais, oito já foram mortas no Paraná apenas nos dois primeiros meses deste ano. Em 2009 o número foi de 21 assassinatos. Em 2008 foram 30. Além de Maringá, os casos ocorreram em cidades como Londrina, Curitiba e região metropolitana e Foz do Iguaçu.
Segundo o Grupo Gay da Bahia, no ano passado foram assassinados no Brasil 198 homossexuais, nove a mais que em 2008, totalizando um aumento de 61% em relação a 2007 (122). Entre os mortos, 117 eram gays (59%), 72 travestis (37%) e nove lésbicas (4%). Apesar do programa federal ''Brasil sem Homofobia'', o País continua sendo o campeão mundial de homicídios contra os gays, seguido do México (35 mortes) e dos Estados Unidos (25). A cada dois dias um homossexual é assassinado no Brasil, vítima de homofobia. O risco de uma travesti ser assassinada é 262 vezes maior que um gay. O relatório aponta que as mortes foram causadas por degolamento, tiros, facadas ou carbonização.
Os dados do Grupo Gay da Bahia são um pouco diferentes dos divulgados pelo Grupo Dignidade, mas mesmo assim colocam o Paraná no topo da lista dos assassinados contra travestis. Segundo o levantamento feito durante todo o ano de 2009, Bahia e Paraná são os Estados mais homofóbicos: 25 homicídios cada um, sendo que na Bahia os gays foram mais numerosos (21), enquanto no Paraná predominaram as travestis (15 mortes). Curitiba foi a metrópole brasileira onde mais homossexuais foram assassinados, 14 vítimas, seguida de Salvador com 11 homicídios. Pernambuco, que nos últimos anos liderava esta lista de assassinatos, registrou 14 mortes, o mesmo número de São Paulo e Minas Gerais, embora o primeiro tenha população cinco vezes maior.
A Secretaria de Segurança Pública do Paraná divulga no site o número de estatísticas gerais de assassinatos no Estado, mas sem especificar se as vítimas são travestis. Segundo a assessoria de imprensa do órgão, não há um estudo que agrupe os casos e, assim, analisá-los como crimes de homofobia. ''A pessoa morreu não porque foi contra a lei, mas sim pelo preconceito. Ou seja, crime de homofobia'', desabafa Rafaelly. Ela é transexual e acompanha de perto o trabalho das travestis que se prostituem nas ruas, através de campanhas para evitar o contágio de doenças sexuais.
No ano passado um homem que integrava uma quadrilha de tráfico de drogas, acusado de matar travestis que deviam dinheiro para o grupo, foi morto pela polícia em uma troca de tiros. Na ocasião, um policial também morreu. Após o confronto, o suposto chefe da quadrilha foi preso em dois dias. Mesmo assim, os assassinatos continuaram.
As travestis mortas geralmente estão mais vulneráveis pois se prostituem nas ruas. ''Eu fui entregar preservativo para as meninas (travestis) que trabalham na Avenida Getúlio Vargas e vi uns homens em um carro jogarem ovos nelas. Mais para frente havia mulheres prostitutas que não sofreram a agressão. O preconceito não é porque elas se prostituem, mas sim por serem travestis'', alerta a presidente da Grupo Dignidade.
Oportunidade
Rafaelly ressalta a dificuldade das travestis encontrarem vagas no mercado de trabalho. ''Existem travestis capacitadas. Um exemplo recente é de uma que tem curso técnico de design. Ninguém deu uma chance. Ela então se propôs a trabalhar em redes de fast-food. Também não aceitaram'', conta Rafaelly.
No final de janeiro o governo federal lançou em Curitiba uma campanha que visa diminuir o preconceito. A iniciativa, solicitada por lideranças do setor, de incluir o nome social das travestis nas listas de chamada nas escolas tem atraído mais gente para as instituições. É a auto-estima delas sendo respeitada. ''Uma das piores coisas para uma travesti é ser tratada como um homem'', explica Rafaelly.


