Fazenda Rio Grande - Dois assaltos em menos de dez dias. Depois de enfrentar duas situações de perigo e tensão no trabalho, o cobrador de ônibus Cristian da Cruz, 20 anos, foi parar no Pronto-Socorro de Fazenda Rio Grande - onde ficou em observação por mais de oito horas. Cristian não quis falar com a imprensa e chorava muito. No dia 24 de janeiro, ele assistiu o assassinato do colega e motorista de ônibus Ricardo Germano Hopaloski, 40 anos, durante um assalto. Ficou sete dias afastado do trabalho. Pediu transferência para a linha Nações II. Ontem, por volta das 5h45, ele foi vítima de outro assalto. Desta vez sem mortes.
Segundo Marcus Bialle, superintendente da Delegacia de Fazenda Rio Grande, o ônibus parou num ponto onde estava um rapaz de boa aparência. O assaltante entrou e apontou a faca para Cristian, dando voz de assalto. Ele saiu do ônibus levando R$ 21 em dinheiro. ''Ele agiu sozinho e fez sérias ameaças de vida ao cobrador. O menino ficou abalado. Prendemos o assaltante (Diogo Rodolfo da Silveira, 23) momentos depois, perto dali, na casa dele'', declarou Bialle.
Em entrevista à FOLHA, Silveira negou que tivesse assaltado o ônibus. ''Não preciso disto. Estava na minha casa com meus irmãos e minha mãe. Eu não roubei ninguém'', disse ele. A família confirma o depoimento dele. Silveira já tem passagem pela polícia. Ele respondeu termo circunstanciado pelo artigo 68 (perturbação ao sossego).
Apesar de negar, o motorista do ônibus reconheceu Silveira como sendo o assaltante. O pai do cobrador, Rubens da Cruz, 46, é motorista de ônibus rodoviário. Ontem, ele ficou o tempo todo com o filho e relatou que o garoto está traumatizado. ''Ele está em estado de choque e tem que ficar a base de sedativos. A família toda está revoltada e assustada. Depois da morte do amigo dele, a gente fez de tudo para acalmá-lo, para dizer que a vida era assim mesmo. Ele voltou a trabalhar e isso aconteceu de novo'', lamentou.
Cristian exerce a profissão de cobrador há um mês e meio. É seu primeiro emprego. O pai conta que o dinheiro do salário seria usado para fazer o curso de artes gráficas. ''Ele é bom de desenho. Queria seguir essa profissão. Estava trabalhando para conseguir pagar os estudos. Agora, acho que não tem condições dele permanecer como cobrador'', analisou.
Cruz relatou que o filho diz o tempo inteiro que vai desistir de trabalhar. Nos dias que ficou licenciado, não saiu de casa. ''Fico revoltado, assustado, sem saber o que fazer. Hoje a gente está vivo. Amanhã ninguém sabe'', desabafou.
Na delegacia, outros cobradores faziam reconhecimento de assaltantes. Dois deles, Cristopher Antony Tognion, 19, e Izaqueu Neves da Silva, 35, foram entrevistados pela FOLHA. Tognion trabalha há 11 meses na linha Iguaçu II e foi assaltado duas vezes. Silva trabalha há 11 anos e foi vítima de dez assaltos. ''Estamos todos apavorados. Dá medo de trabalhar. A gente sai de casa e não sabe se volta'', disse Tognion. A Polícia Civil diz que a maioria dos assaltantes pratica os delitos para comprar drogas.
O diretor do Pronto Socorro, onde Cristian ficou internado, Luis Fernando Zarpelon, contou que o cobrador deu entrada no hospital com estresse pós-traumático. Ele foi medicado e ficou em observação. Os pais foram orientados a procurar apoio psicológico para o rapaz. ''A família tem papel fundamental para a recuperação dele'', relatou.

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