Vila Reis fica a cerca de dez quilômetros da área urbana de Apucarana
Vila Reis fica a cerca de dez quilômetros da área urbana de Apucarana | Foto: Marcos Zanutto - Grupo Folha

O distrito Vila Reis, em Apucarana (Vale do Ivaí), fica aproximadamente dez quilômetros de distância da área urbana da cidade. O último levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de 2010, mostrou que o povoado de ruas pacatas e alguns comércios e bares tem 4.417 habitantes, no total. Há 30 anos eram 4.627. A parte rural foi a que mais perdeu moradores, caindo 2.663 (1991), 2.508 (2000) até chegar a 1.960 (2010).

Natural de São Paulo, o aposentado Hélio Teodoro Nunes está vivendo no distrito há cerca de dois anos, por conta da filha. Ele classifica o lugar como tranquilo. Mesmo com o pouco tempo de convívio, já notou esta perda populacional. “Têm muitas casas com placa de vende-se. Não tenho o que falar mal daqui, considero melhor que São Paulo. O único problema é o frio”, conta. Apucarana fica 988 metros acima do nível do mar.

Benedito Filho: “Como é um lugar pequeno, todo mundo se conhece"
Benedito Filho: “Como é um lugar pequeno, todo mundo se conhece" | Foto: Marcos Zanutto - Grupo Folha

Já Benedito Filho, caminhoneiro aposentado, mudou-se do núcleo habitacional Papa João Paulo, em Apucarana, para a Vila Reis ao conseguir uma residência mais barata. “Aqui tem sacolão, mercado. Tem gente que se muda querendo algo a mais, entretanto, estou feliz, criei minha família aqui. Se depender de mim, não me mudo”, garante. “Como é um lugar pequeno, todo mundo se conhece. Se chega gente diferente sabemos”, diz a comerciante Lucinéia de Fátima Freitas. A reportagem foi prova deste “olhar desconfiado” em relação a pessoas de fora até se apresentar no distrito.

Os moradores veem a necessidade de algumas melhorias e preços mais baixos em determinados estabelecimentos. Outro pedido, que já foi levado ao Governo do Estado, é para a construção do Colégio Estadual Professora Godomá Bevilacqua de Oliveira, que atualmente funciona em dualidade com a escola municipal do distrito. A promessa é que a edificação comece no próximo ano. Quando precisam de assistência médica, precisa procurar a UBS (Unidade Básica de Saúde) da região central ou de Califórnia, município vizinho.

FALTA DE INVESTIMENTOS

Na década de 1980, o governo do Estado tentou investir em pequenos municípios como forma de incentivar a permanência das pessoas e evitar a migração para cidades maiores. Esta verba foi aplicada em infraestrutura, por meio de financiamento do Banco Mundial. “A ideia era criar uma espécie de barreira para que essa população não se deslocasse para fora do Paraná ou grandes centros. Acabou que o programa não conteve a população e por volta de 1987 repetiu a dose”, relembra Nestor Razente, professor aposentado da UEL (Universidade Estadual de Londrina).

 Nestor Razente, pesquisador:  “Só garantir emprego não basta. Precisa de mais atrativos"
Nestor Razente, pesquisador: “Só garantir emprego não basta. Precisa de mais atrativos" | Foto: Marcos Zanutto - Grupo Folha

Neste novo formato deste programa, a preocupação do poder público foi liberar dinheiro para obras em todas as cidades, com exceção de Curitiba. “Segurou as pessoas por um tempo, enquanto tinha obras”, contata o historiador e pesquisador, coordenador da pesquisa "Esvaziamento populacional nas cidades paranaenses.”

De acordo com o especialista, existe uma falta de investimentos nos distritos, o que incide na falta de oportunidades de trabalho, não oferecendo substância para jovens e famílias. “Só garantir emprego não basta. Precisa de mais atrativos. Quando lançaram estes programas, por exemplo, era para investir nas cidades e não nos distritos. A maioria das obras era de pavimentação asfáltica, ou seja, tem um período e depois acaba. Precisa de emprego permanente e pensado no geral”, pontua.

Razente ainda chama atenção para o fato do ser humano, culturalmente, sair em busca de outros contatos. “Fomos treinados para lidar com o crescimento da cidade, porém, não nos preocupamos se a cidade não vai crescer, se ficará estagnada ou pior, diminuir de população. A história do conhecimento humano não foca na desurbanização”, adverte. “Desde a década de 1970 o Paraná tem tendência de perda de população rural, tanto pelo fim do foco no café e industrialização, quanto pelas mudanças de produção.”

Na Espanha e Norte de Portugal, que registraram fenômenos parecidos, algumas localidades voltaram a contar com a figura do mascate, com pessoas passando pelos sítios vendendo tudo, como maneira de oferecer mais opções nos povoados. “Até onde vai este fenômeno (da evasão dos distritos) é uma indagação que nos faz continuar perguntando”, reconhece.

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