Um escritor londrinense definiu que passear pela Vila Nova, um dos bairros mais tradicionais da cidade, é como navegar pela ''geografia dos rios'' brasileiros sem içar âncora. Entre as quatro principais ruas da vila - Araguaia, Tietê, Guaporé e Mamoré - flutuam sonhos de crianças que ainda brincam livres nas ruas, minam histórias de pioneiros sobre a Londrina entre os anos 40 e 60, desembocam os agitadores da noite em seus bares boêmios e submergem as esperanças de trabalhadores que insistem em manter as portas abertas desde o auge do ''ouro verde''.
A Vila Nova é uma região única de Londrina. No passado, ganhou o nome do próprio povo antes de existir oficialmente no papel. Hoje, conta com uma universidade, um batalhão do Corpo de Bombeiros e a manutenção de três das principais entidades assistenciais de Londrina. Apesar de tanto movimento, os moradores preservam o hábito de caminhar pelas ruas estreitas do bairro e cultuar a fé diariamente nas igrejas católica e batista, sediadas há décadas no mesmo local.
Como descrever um lugarejo tão agitado, que não registra um homicídio há anos e está entre os locais com menor índice de ocorrência policial, apesar de localizado na região central da cidade? Talvez a resposta da aposentada Aparecida Napoli, 70 anos, traduza o sentimento que se espalha pelas ruas como os braços de um rio em época de cheia. ''Aqui existe fraternidade entre os moradores''. O argumento pode até parecer suspeito, ainda mais vindo de uma pioneira que vive no mesmo bairro há 60 anos e na mesma casa há ''apenas'' 55 anos. ''Cheguei a Londrina quando a Vila Nova não existia. Viemos pra cá assim que foi loteada e nunca mais saímos. Este é o melhor lugar para se viver'', afirmou Aparecida.
Mesmo sendo o segundo bairro criado na cidade (a Vila Casone veio primeiro), não havia registro nos documentos oficiais. A Vila Nova nasceu em um loteamento demarcado em meio a diversas chácaras, em 1938, com o nome de Vila Nalin, referência à família proprietária da extensa área adquirida pela prefeitura. Apesar de ser uma junção de bairros (são nove no total), a Vila Nova sempre foi conhecida por este nome. ''Depois da Casone, as pessoas diziam que havia uma ''vila nova'' abaixo da linha do trem que cortava a cidade. Todo mundo começou a comprar terrenos aqui'', explicou Josefina Biasi, 65 de vida e moradora do bairro há 45 anos.
Para homenagear os pioneiros do bairro e também de Londrina, os moradores realizaram uma festa no mês passado, Dia Nacional do Migrante, na Igreja Nossa Senhora Aparecida. No santuário, que também sedia a regional da Pastoral do Migrante, foi montada uma exposição com fotos e objetos usados pelos primeiros moradores de Londrina. ''Fiquei emocionado ao me reconhecer na foto quando tinha 10 anos. Meu pai desembarcou na cidade em 39, juntamente com outros seis irmãos nascidos na Itália'', contou Guilherme Massado, 67, mostrando a foto com mais de 80 familiares reunidos no aniversário de 50 anos dos avós Benevuto e Ana Massaro.

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