O consertador geral Elias Freitas de Castro, 37 anos, colocou televisão, aparelho de som e sofá no lugar reservado ao artesanato de madeira. O que era para ser um negócio virou parte da residência. Maria Luíza Marques, 33 anos, transformou a borracharia numa sala de passar roupas. No lugar de emprego e renda, a Vila de Ofícios localizada na Vila das Torres (ex-Vila Pinto), em Curitiba, gerou falência e desemprego.
O complexo de 55 sobrados, que deveria unir moradia e pequenos empreendimentos num mesmo local, foi inaugurado em 1995 pela Prefeitura. Passados três anos, apenas nove negócios, segundo a Fundação de Assistência Social (FAS), ainda permanecem com as portas abertas na Vila Pinto, onde o projeto da Vila de Ofícios foi pioneiro. Hoje, existem 12 vilas na capital que atendem 177 famílias.
Quem apostou no projeto está arrependido. ‘‘Usaram da nossa boa fé, passaram mel na boca do pobre’’, afirma a dona de casa Edinéia Vieira, 31 anos, esposa de Elias de Castro. ‘‘Foi uma ilusão, o povo tem medo de vir por causa da favela’’, diz Elizabete Alves de Almeida, 31 anos. A zeladora Oleane de Oliveira, 23 anos, acha que a localização do rio Belém atrapalhou o desempenho da Vila de Ofícios. Os sobrados foram construídos perto a margem direita do rio. O marido de Oleane tinha uma serralheria e agora foi trabalhar com um amigo para não ficar desempregado.
Elias de Castro sugere que a Prefeitura crie um espaço para que os moradores possam vender seus produtos. ‘‘Poderia ser feita uma cooperativa’’, aconselha ele. Castro afirma que ‘‘do jeito que está, não dá para viver e nem comprar um litro de leite’’. Maria Luíza Marques, que tinha uma borracharia, reclama das rachaduras que estão aparecendo nos sobrados. ‘‘Não adianta nada ter casa e andar de barriga vazia’’, reclama Maria, que paga R$ 70,00 mensais de taxa de ocupação. Sem emprego, ela diz que poderá atrasar as parcelas nos próximos meses.
De acordo com a Fundação de Assistência Social (FAS), a situação na Vila Pinto é um caso à parte. A assessoria de imprensa da FAS informou que em 80% das 12 vilas implementadas, os negócios estão funcionando. O projeto deve continuar e mais três vilas estão previstas nos bairros Cajuru, Boqueirão e Pinheirinho.
A diretora de ocupação, treinamento e geração de renda da FAS, Marisa Giacomini, diz que os moradores da Vila Pinto receberão a partir do ano que vem um treinamento para melhorar a qualidade dos serviços e dicas para vender os seus produtos. Os problemas da Vila Pinto, segundo Marisa, podem ter acontecido porque alguns moradores não tinham conhecimento para fazer negócios.
Marisa Giacomini disse que as famílias que quiserem ser cadastrar nas próximas Vilas de Ofícios, terão que ter aptidão de pequenos empreendedores. ‘‘Se o candidato não tiver um perfil empreendedor, não terá condições de comprar uma casa na Vila de Ofício’’, alerta.Leandro TaquesO local reservado para o ofício foi transformado em sala de TVDimitri do Valle

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