Valmir Denardin
De Foz do Iguaçu
Pouco mais de dois anos após sua implantação, a Vila Rural de Foz do Iguaçu vai ser desativada. A causa do fracasso do projeto, que custou cerca de R$ 900 mil aos cofres públicos e atende 74 famílias no município, foi o erro na escolha do local para sua instalação.
A Vila Rural foi implantada em novembro de 1997, em uma área de 370 mil metros quadrados, na região norte de Foz do Iguaçu. Está a apenas 12 quilômetros do centro da cidade e é cercada por conjuntos habitacionais urbanos – entre eles um programa de desfavelamento da prefeitura, que já abriga 400 famílias.
Por estarem integrados a uma área urbanizada, os moradores da Vila Rural não podem criar animais – uma das alternativas do projeto. Além disso, as plantações são constantemente roubadas. ‘‘Paramos de plantar porque não sobrava milho verde, abobrinha ou pepino’’, afirma Janete Aparecida Fernandes, 26 anos, que mora na área há um ano e três meses, com o marido e quatro filhos.
Mas a ‘‘urbanização’’ não é o principal problema do núcleo. Os 74 lotes para o cultivo estão localizados sob as linhas de transmissão da energia gerada pela Hidrelétrica de Itaipu, a maior do mundo. Por redes de cabos metálicos, a uma média de 14 metros de altura do solo, passam 11,5 mil megawatts de energia. As casas estão a uma média de 50 metros de distância da rede.
Moradores relatam que tiveram problemas graves de saúde depois que se mudaram para o local (leia texto nesta página 2). Alguns estudos internacionais apontam que a exposição constante de pessoas a campos eletromagnéticos pode provocar doenças.
Além disso, as famílias afirmam que a radiação está ‘‘queimando’’ os produtos agrícolas ainda na terra. ‘‘Não pude aproveitar uma raiz de mandioca. A melancia e o feijão também apodreceram’’, contou à Folha, na última segunda-feira, o agricultor Atacílio Deodato dos Santos, 54 anos. Enquanto falava, Santos mostrou à reportagem uma raiz de mandioca totalmente podre.
Outra afirmação dos moradores também foi comprovada pela reportagem. Em dias de chuva, é impossível passar de guarda-chuva sob os linhões sem tomar choques de intensidade moderada. ‘‘É como enfiar o dedo numa tomada de 110 volts’’, comparou o morador José Irineu Maciel, 50 anos.
Devido às supostas doenças e aos choques elétricos, boa parte dos terrenos do projeto está abandonada. Em uma das entradas da Vila Rural, uma placa colocada por Itaipu alerta: ‘‘Área de risco; não pare sob as linhas de alta tensão.’
Tanto a prefeitura quanto o governo do Estado – responsáveis pelo projeto – negam que a escolha da área para a implantação da Vila Rural tenha sido inconsequente. Para isso, eles se baseiam em um parecer técnico elaborado em junho de 97 pela Superintendência de Manutenção e o Departamento de Engenharia de Manutenção da Itaipu Binacional.
Esse parecer libera o cultivo de alimentos sob as linhas de transmissão, mas faz uma série de restrições. Proíbe a construção de qualquer edificação, o manuseio de produtos inflamáveis e o uso de tubos metálicos em sistemas de irrigação.
Proíbe também o cultivo de plantas que atinjam mais de dois metros de altura – como cana-de-açúcar e árvores frutíferas. Essa restrição inviabilizou o plantio de citros, uma das mais rentáveis alternativas econômicas para pequenas áreas.
Ao mesmo tempo que permite o cultivo da área, o documento alerta que é proibida a permanência prolongada de pessoas sob as linhas, devido à possibilidade de rompimento e queda dos cabos, ‘‘por acidente ou vandalismo’’. Em épocas de plantio e colheita, um agricultor costuma passar no mínimo oito horas diárias na lavoura.
Para Celso Rios, 38 anos, diretor do Departamento de Habitação da Prefeitura de Foz, a insatisfação dos moradores e seus relatos têm caráter ‘‘político’’. O presidente do Sindicato dos Eletricitários de Foz, Assis Paulo Sepp, é vereador pelo PT, partido de oposição ao prefeito Harry Daijó (PPB).
De acordo com Rios, em um segundo parecer técnico, feito em junho do ano passado, a pedido da prefeitura, Itaipu teria rechaçado as suspeitas. Esse novo parecer, segundo o diretor, afirma que, baseado em estudos feitos nos Estados Unidos, no Canadá e na Argentina, não há evidências de que a exposição a campos eletromagnéticos traga problemas à saúde.
A gerente regional da Companhia Habitacional do Paraná (Cohapar) em Cascavel, Carmem Lúcia Carvalho, 38 anos, usa o mesmo argumento. ‘‘Se existissem riscos, os funcionários da Itaipu que trabalham na usina seriam atingidos’’, avalia. ‘‘Investimos alto porque temos laudos especializados.’ A Cohapar é o órgão estadual encarregado do projeto das Vilas Rurais. A unidade de Foz é a única entre as 180 do Estado localizada no perímetro urbano.
Apesar das argumentações, prefeitura e governo do Estado já trabalham para remover as famílias do local. A prefeitura estuda a compra de uma área rural de 260 mil metros quadrados para a transferência. Segundo Carmem Carvalho, as casas do projeto serão ocupadas por candidatos do programa urbano de habitação do Estado. Os terrenos sob as linhas de transmissão de energia deverão ficar ociosos.

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