O ex-vigilante bancário Jeferson Tadeu Rodrigues Gonçalves, 42 anos, preso anteontem, no bairro Campo Comprido, em Curitiba, é acusado de enganar entre 500 e mil candidatos a aposentadoria. Há dois anos ele é proprietário de um escritório que se comprometia em fazer o encaminhamento do benefício para trabalhadores. Pelo serviço, Gonçalves cobrava uma taxa que variava entre R$ 20,00 e R$ 50,00. Nos dois anos, teria faturado cerca de R$ 25 mil.
Ao invés de encaminhar os pedidos, no entanto, Gonçalves deixava acumular os documentos no escritório, a exemplo do que fazia Dora, a personagem de Fernanda Montenegro no filme Central do Brasil, com as cartas que escrevia na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro.
Centenas de trabalhadores que esperam pelo benefício há mais de um ano, nem sequer foram cadastrados pelo INSS. No escritório de Gonçalves, a polícia encontrou grande quantidade de carteiras de trabalho e outros documentos, que deveriam ter sido usados nos pedidos.
Ontem, até às 15 horas, dez vítimas já haviam comparecido ao 12º Distrito Policial (DP), no bairro Santa Felicidade, para pegar os documentos e tentar reaver o dinheiro das taxas que tinham pago. O soldador Jesildo Marques dos Anjos, 42 anos, havia entregado os documentos há três semanas. Com os papéis, gastou R$ 30,00.
De pé em frente ao balção da delegacia e a cerca de cinco metros de Gonçalves, o soldador se dizia aliviado por ter recuperado os documentos. ‘‘Isso aqui é minha vida. Todas as empresas onde trabalhei desde 1975’’, comentou. Assim como a maioria das vítimas de Gonçalves, Marques soube dos serviços através de amigos, que também foram enganados. Apesar de considerar as carteiras de trabalho mais importantes do que o dinheiro, o soldador disse que ainda quer recuperar os R$ 30,00 que pagou inutilmente.
Segundo o delegado Rubens Recalcatti, titular do 12º DP, a polícia chegou a Gonçalves por causa de uma denúncia de um trabalhador lesado. A vítima compareceu à delegacia anteontem dizendo que os papéis não tinham sido apresentados ao INSS.
Relativamente traquilo, sem antecedentes criminais, Gonçalves disse que não tinha intenção, no início, de aplicar um calote. ‘‘Mas os papéis foram se acumulando’’, afirmou. Enquadrado no artigo 171 do Código Penal, por estelionato, o ex-vigilante, que é casado e tem dois filhos, pode pegar de um a cinco anos de prisão.
Com centenas de carteiras de trabalho sobre o balcão da delegacia, Recalcatti quer que as vítimas procurem a delegacia para registrar queixa e pegar os documentos. O delegado disse ser impossível comunicar os trabalhadores por causa da falta de endereços e telefones e de estrutura do distrito.

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