Nova perspectivaO ex-vigilante José Antonio Leite: ‘Hoje faço coisas que pareciam impossíveis até semanas atrás’ ‘‘Até o início de março, eu vivia amargurado, fechado dentro de casa e com muito medo do futuro, de tudo e de todos. Minha família inteira - pais, mulher e filhas - estava muito triste. Isto tudo faz parte do passado. Em pouco mais de um mês, e com apenas oito sessões de fisioterapia, eu evoluí bastante. Hoje, eu tomo banho, troco as roupas e calçados, saio da cama para a cadeira-de-rodas e dirijo um automóvel adaptado totalmente sozinho, sem depender de ninguém. Parece pouco, mas estas coisas pareciam para mim impossíveis para sempre, até quatro semanas atrás.’’
Esta é a avaliação do ex-vigilante do Banco do Brasil (BB), José Antonio de Souza Leite. Ele foi ferido pelas costas por um tiro de revólver, em julho do ano passado, durante um assalto à agência do BB da avenida Higienópolis (área central). A bala, calibre 45, atingiu a sétima e a oitava vértebras da coluna cervical, deixando José Leite paraplégico. Leite ficou sem sensibilidade na parte abaixo do estômago e sem movimentos nos membros inferiores. Hospitalizado durante quase quatro meses, ele sofreu várias cirurgias, mas tinha pequenas chances de recuperação porque não contava com sessões frequentes de fisioterapia e tratamento especializado.
‘‘Isto tudo é muito caro e feito em clínicas particulares - fora das minhas condições econômicas. Nos hospitais credenciados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), as filas são longas e muito demoradas’’, reclamou José Leite, em entrevista publicada pela Folha em 19 de março último, dentro de uma série de reportagens que mostrou o nível de violência em Londrina. Naquele dia, a reportagem tratava da insegurança nas agências bancárias. Sensibilizado com a situação do ex-vigilante - que foi aposentado por invalidez pela Previdência Social - o fisioterapeuta Nelson Shirabe entrou em contato com o jornal e ofereceu a ele um completo e gratuito atendimento.
No dia 21 do mês passado, José Leite foi levado à clínica de Shirabe para avaliação geral. Na sequência, ele começou a ser tratado em sessões de exercícios - que duram entre 60 e 90 minutos - coordenadas pela formanda em Fisioterapia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Luciana de Paula Dias, sob orientação de Nelson Shirabe. O proprietário da clínica é formado também pela UEL, há 12 anos, e possui diversos cursos de especialização em Fisioterapia no Japão e Estados Unidos. Cada sessão fisioterápica particular custa cerca de R$ 35,00. A clínica não atende pelo SUS.
Com problemas de locomoção entre a residência - em bairro da periferia de Cambé - e a clínica, José Leite só conseguiu participar de oito sessões durante o primeiro mês de tratamento. Ele comenta: ‘‘As sessões poderiam e seriam diárias, se dependesse só da minha vontade. Mas minha mulher não dirige e, no início, eu dependia de amigos para o meu transporte. O problema é que as sessões são sempre durante o dia, horário em que meus amigos estão trabalhando. Mesmo assim, os avanços têm sido grandes. Minha família e eu estamos muito felizes, emocionados e agradecidos à Folha, ao doutor Nelson e aos funcionários da clínica, que me atendem com muito carinho e competência’’.
Na opinião de Nelson Shirabe, os avanços de José Leite foram bastante grandes desde o início das sessões de fisioterapia. ‘‘Ele já tem um bom controle corporal no tronco e membros superiores, que estavam quase que atrofiados pelos meses sem a prática de exercícios. O paciente conseguiu também um maior controle e equilíbrio do corpo como um todo. As pernas e pés, por exemplo, já se movimentam melhor com a ajuda dos braços e mãos. Os movimentos ainda são pequenos, conforme era esperado, mas a evolução é boa’’, avalia Shirabe.
Segundo ele, a recuperação do ex-vigilante será ainda maior e mais rápida quando ele puder frequentar a piscina, para exercícios de hidroterapia. Isso ainda não é possível porque a escara - ferida proveniente da morte de tecido em consequência de muitos meses deitado - das nádegas e costas de José Leite ainda não está totalmente cicatrizada. Isso acontecerá em breve, porque Shirabe está usando aplicações de laser no local.
O fisioterapeuta explica que o ex-vigilante do BB teve apenas lesões parciais de nervos e que neles não houve rupturas. ‘‘Não dá para prever quais serão os maiores avanços do José e nem em quanto tempo eles estarão concretizados. Depende de muitos fatores de difícil quantificação. Também não podemos criar expectativas que depois não possam ser alcançadas; temos que ser otimistas, mas trabalhar muito com os pés no chão’’, afirma Shirabe. ‘‘A recuperação pode ser mais rápida ou mais lenta, dependendo inclusive do número de sessões e do tipo de tratamento. Mas o balanço do início de tratamento é bastante positivo, principalmente como resultado do total empenho do José. O que muito nos alegra e nos estimula para a busca de novos avanços.’’
‘‘Com a entrada dele na água, nas próximas semanas, a estimulação para os diferentes movimentos - inclusive voltar a ficar em pé com ajuda de bóias - será muito maior e prazerosa. E os resultados positivos, com certeza, virão mais rapidamente’’, comenta Nelson Shirabe. ‘‘Este trabalho de recuperação é árduo e demorado, mas vale a pena. Temos aprendido muito com a força de vontade do José e com a compreensão e apoio de toda a família dele, nestes momentos difíceis. Aliás, o bom resultado da fisioterapia depende também de um bom preparo psicológico do paciente. E isso, felizmente, o José tem de sobra.’’

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