VIDAS INDEFESAS Parte 1 - Bebês ameaçados pelo vírus da Aids
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quinta-feira, 06 de outubro de 2005
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
No carrinho de bebê, o pequenino milagre de dois anos sorri para qualquer um que se aproxima. Dos olhinhos, a alegria transborda feito um mar de inocência. Mas os cabelinhos ralos e a palidez da pele denunciam a desnutrição que castiga a vida do menino de apenas dois anos: resultado da devastação provocada pelo vírus da Aids, porque embora a doença castigasse o garotinho desde seu nascimento, foi diagnosticada há apenas algumas semanas. Assim como aconteceu com essa criança, que se recupera no Centro de Apoio à Recuperação Infantil (Cari) Dr. Hugo Dehé, em Londrina, muitos outros bebês podem estar ameaçados pelo HIV ainda no ventre de suas mães.
Segundo especialistas ouvidos pela Folha, mesmo numa região que conta com medicina de ponta e num país que tem reconhecimento mundial pelo duro combate que trava para conter a disseminação da Aids, o risco da transmissão vertical (vírus passa da mãe para o filho) preocupa por uma conjunção de fatores. Passa pela negligência de muitos ginecologistas e também de algumas mães, por questões sociais e até pela forma de atuação dos planos de saúde. É bom lembrar que quando a Aids é detectada durante a gestação e o tratamento é deflagrado, as chances do vírus passar da mãe para o bebê se reduzem a 2%. Sem o diagnóstico precoce, e portanto, sem a adoção de cuidados, as chances do filho ser contaminado variam entre 25% a 40%.
A infectologista Jaqueline Dário Capobiango, docente da área de Moléstias Infecto-contagiosas no Hospital Universitário (HU) e coordenadora do ambulatório de Aids Pediátrico no Hospital de Clínicas (HC), ambos ligados à Universidade Estadual de Londrina (UEL), aponta que uma das dificuldades para o diagnóstico de Aids em gestantes reside no fato de que muitos ginecologistas não solicitam a sorologia para HIV durante o pré-natal.
Esta falha é maior, segundo ela, nos pré-natais feitos em consultórios particulares vinculados aos planos de saúde, onde o constrangimento e o preconceito impedem que os médicos peçam o teste de Aids à suas pacientes no início e no final da gravidez. A boa notícia vem da rede pública de saúde, que há vários anos incluiu como rotina o exame que diagnostica a doença.
Quando o teste anti-HIV não é feito durante a gestação, a infectologista garante que ainda é possível realizar o chamado teste-rápido, cujo resultado fica pronto em poucos minutos, durante o parto, já que é neste momento que 95 em cada 100 crianças que vivem com HIV são contaminadas. Em caso positivo, é administrada medicação tanto na mulher quanto no bebê para reduzir o risco de contaminação. O problema é que muitas vezes também este teste não é feito. Segundo Jaqueline, a esmagadora maioria dos convênios médicos não cobrem essa ''despesa'' extra. ''É um teste simples, com boa sensibilidade ao vírus e com custo acessível, que compensa o risco de não se fazer e ter que tratar um paciente por toda a vida'', observa. ''Os testes (antes e durante o parto) são as únicas chances que o bebê tem de não ser contaminado ou ser tratado desde cedo'', lembra a especialista. O teste-rápido é feito tanto na Maternidade Municipal quanto no HU.
Assistente social do HC, Argéria Maria Serraglio Narciso lamenta que mesmo nos casos em que se detecta a contaminação da mãe durante a gestação, os bebês continuam correndo risco. Isso porque muitas grávidas soropositivas driblam os agentes de saúde pública e não tomam a medicação que controla a carga viral e ajuda a proteger as crianças. ''Já tive casos em que a gestante pegava a medicação na farmácia, levava para casa mas não tomava'', revela.
Difícil também, conta Argéria, é convencer gestantes adolescentes ou usuárias de drogas, que são portadoras do vírus, a fazerem uso dos medicamentos. Até após o parto, os bebês correm perigo. ''Já tivemos um caso em que a criança nasceu soronegativa mas a mãe ofereceu o peito e contaminou o filho'', exemplificou.
E assim, mesmo com toda a informação existente sobre Aids e na contramão de todos os cuidados disponíveis, vidas como a do menino internado no Cari continuam sendo contaminadas pelo vírus. Indefesas, essas crianças são condenadas a conviver para sempre com uma doença crônica que tem tratamento mas cuja cura ainda não foi descoberta e que a sociedade ainda rejeita de forma preconceituosa.
Enfermeira no Cari há um ano, Fabiane Ikeda diz que desde que a entidade foi fundada, em 1999, já cuidou de pelo menos 12 crianças soropositivas. ''Atendemos famílias muito pobres que até têm informação, mas a ignorância ainda não as deixa acreditar que a doença existe e pode ser transmitida''.
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