VIDAS INDEFESAS Final - Após 20 anos, nascem os 'netos' da Aids
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sexta-feira, 07 de outubro de 2005
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Há três meses, Londrina viu nascer o primeiro ''neto'' da Aids no município. Isso significa que o bebê é soropositivo, assim como a mãe e a avó dele. Mais um sinal de que a epidemia continua avançando após mais de duas décadas desde a sua descoberta, mesmo com todos os esforços para contê-la. Um estudo publicado neste mês pelo jornal científico inglês ''The Lancet'' aponta que grávidas teriam o dobro de chance de contrair o vírus em comparação com as demais mulheres. Os cientistas sugerem que as mudanças hormonais durante a gravidez podem tornar a mulher mais suscetível à infecção pelo HIV.
Sabendo que o perigo não pode ser ignorado, especialistas, Secretaria Municipal de Saúde e a Promotoria da Vara da Infância e Juventude se reuniram há duas semanas para discutir formas de redução dos riscos da transmissão vertical (mãe para o filho). A preocupação aumenta pelo fato de que muitas mulheres grávidas nem sabem se são ou não portadoras do vírus.
A promotora da Vara da Infância e Juventude, Édina Maria de Paula, lembra que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) tem medidas de proteção para essa situação. O artigo 98 prevê que se houver ameaça ou violação do direito à proteção da criança, tanto o Estado quanto a sociedade e os pais podem ser responsabilizados por falta, ação, omissão ou abuso. Aos pais, as punições variam desde orientação, apoio, acompanhamento e inclusão em programa comunitário, até a colocação do filho em família substituta.
A infectologista do Hospital Universitário e do Hospital de Clínicas da UEL, Jaqueline Dario Capobiango, estimou que o total de gestantes em Londrina gira em torno de oito mil por ano. Especula-se, com base na realidade nacional, que pelo menos entre 0,5% e 1% delas sejam soropositivas. Portanto, 80 futuras mamães podem estar contaminadas com o vírus HIV e correm o risco de contaminar seus filhos. Sabendo-se que em 70% dos casos a contaminação do bebê se dá no momento do parto, é fundamental o estabelecimento de medidas preventivas mais eficientes durante a gestação, no nascimento e no pós-parto.
Em Londrina, segundo a Coordenação Municipal do Programa DST/Aids, foram confirmados 106 casos de Aids em gestantes desde 2002, quando esse detalhamento começou a ser feito, com 51 casos de contaminação vertical. No Hospital de Clínicas existem nove gestantes soropositivas sendo acompanhadas e mais 37 crianças e adolescentes fazendo tratamento com anti-retrovirais. Outros 35 bebês de Londrina e região com até dois anos de vida estão sendo acompanhados porque foram expostos ao vírus.
Como a epidemia de Aids é uma questão de saúde pública, a Secretaria Municipal de Saúde deverá enviar até o final do ano folhetos informativos para todos os médicos que fazem pré-natal em Londrina tanto do SUS quanto particulares ressaltando a importância da prevenção da transmissão vertical de Aids.
O ponto fundamental, segundo as fontes ouvidas, seria que todas as gestantes realizassem a sorologia para Aids pelo menos duas vezes durante a gravidez. Constatada a contaminação, as futuras mamães deveriam ter acompanhamento psicológico, social e médico constantes.


