Londrina - Noite inspiradora/Romance e paixão/Livre para amar. O haicai de Gilberto Bizelli é um dos 74 poemas produzidos por 68 alunos do Centro Estadual Integrado de Educação Básica para Jovens e Adultos Herbert de Souza (Ceiebja Betinho). A compilação desse material foi transformada no livro intitulado "Vidas", lançado nesta semana na instituição, com direito a dia de autógrafos e projeção do material em um telão. A diretora Vilma Foganholi destacou que o trabalho, a cultura e o tempo são o tripé da educação de jovens e adultos. "Nós lutamos para que eles sejam capacitados. Muitos deles chegam a prestar o vestibular", ressaltou.
O título do livro é mais do que adequado para falar sobre os autores. Alguns tiveram dificuldades de aprendizado e outros foram obrigados a deixar os estudos para trabalhar. Ao entrar no Ceiebja, eles buscaram a superação. Esse esforço transparece nas páginas. Ao aprender a ler e escrever conseguiram expressar discursos que estavam presos dentro de cada um deles.
No dia dedicado aos autógrafos, a cada texto projetado no telão surgiam olhares de surpresa ou risadas envergonhadas. Colegas apontavam e celebravam quando viam a obra exposta na tela branca. Cumprimentos se espalhavam pelo refeitório transformado em salão de festas. Os aplausos ecoavam e recompensavam o trabalho árduo dos alunos. O livro foi publicado no formato de bolso e a capa foi ilustrada pelos próprios alunos. Até chegar a esse resultado, o trabalho foi árduo.
A cabeleireira Ernestina Milani, de 71 anos, revelou que foi necessário muito esforço para produzir o poema. Ela sofre de disritmia no cérebro, o que faz com que ela sofra pequenos lapsos de memória. "Isso fez com que eu não aprendesse a ler e a escrever até os 34 anos", destacou. "Mesmo agora, levei dois dias para escrever o poema e precisei ir ao dicionário várias vezes", ressaltou.
O motorista aposentado José Barbosa Filho, de 70, relatou as dificuldades da profissão na qual atuou boa parte de sua vida. Ele citou problemas como greve, buracos, falta de segurança nas estradas e pediu a valorização dos profissionais que transportam as riquezas do País. Para ele, a publicação do livro foi uma vitória. "Na minha infância eu morava na zona rural e não tinha condições de ir à escola. Meus pais também não fizeram muito esforço para que eu estudasse. Estou aproveitando agora, que parei de trabalhar, para poder estudar", expôs.
As professoras Maria Lúcia Moreira Ferreira e Maristela do Carmo Silva Senegalia relataram que muitos resistiam a produzir os poemas e alguns até tentaram desistir. Pois não é que um dos alunos transformou essa dificuldade em um poema? Lauderci Cardoso Vilani escreveu: "Preciso fazer um poema/ Mas não tenho inspiração/ Quem sabe um dia encontre/ Palavras que vêm do coração".
A professora Maria Lúcia explicou que a ideia surgiu quando trabalhava o Modernismo e depois de apresentar os poemas de Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes. "Queria mostrar que cada um podia se desvencilhar dos conceitos e estruturas da Europa e contar coisas do Brasil", destacou. Sua colega Maristela partiu de outro princípio. "Começamos a tratar do tema meio ambiente e surgiu a ideia de trabalhar com o haicai, que possui a característica de tratar desse tema", explicou. Mais do que isso, as duas enfatizaram que a obra ajudou a melhorar a autoestima. "Eu sempre espero que os alunos saiam da sala de aula modificados, melhores do que quando entraram", destacou Maristela.
Para Jonas David da Silva Lascasas, isso foi uma realidade. Vítima de uma paralisia cerebral, seu poema serviu para expressar que se sente solitário e que sua futura amada terá que entender suas limitações. "Isso tudo foi para dizer que eu sofro muito com o preconceito das pessoas com as vítimas de paralisia cerebral".

Matrículas
O Ceiebja Betinho fica na Rua Luiz Alves de Lima e Silva, 336, no Jardim Itamarati, e está com matrículas abertas para várias disciplinas para os que desejam iniciar ou continuar os estudos, tanto no Ensino Fundamental Fase II (correspondente ao período do 6º ao 9ª ano) quanto no Ensino Médio.


SERVIÇO
■ Mais informações pelo fone (43) 3338-4873 ou 3347-6119.

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