A falta de tempo para a família fez o enfermeiro Marcos Belmont mudar, há sete anos, os rumos de sua vida. Do antigo ofício como integrante das equipes do Programa Saúde da Família (PSF), sobrou a preocupação com o desenvolvimento do ser humano e a facilidade em entender o universo de patologias que podem comprometê-lo. Hoje ele é um dos artesãos que participam da feira Feito à Mão, que acontece todos os sábados e domingos de manhã no Calçadão de Londrina, e um dos poucos que se dedicam a produzir algo antigo, mas que atende, como poucos, as demandas da vida moderna: jogos e brinquedos educativos.
Mais do que artesão, porém, Belmont é um homem satisfeito. A decisão de mudar de profissão veio acompanhada de benefícios que, para o pai de três filhos, não têm preço, como o tempo para acompanhar a rotina da família e o crescimento dos meninos. ''Eu passei sete anos trabalhando fora de Londrina. Só vinha para casa nos finais de semana ou saía bem cedo e voltava à noite. Não tinha tempo para nada. Meu filho do meio, hoje com 15 anos, tem um problema psicomotor e eu não consegui acompanhar seus primeiros anos de vida. Poderia tê-lo ajudado mais'', ressente-se.
O enfermeiro não pôde recuperar os anos perdidos longe da família, mas mudou a tempo de acompanhar e colaborar para o crescimento dos filhos, atualmente com 19, 15 e 5 anos. ''Agora estou mais presente, faço os meus horários, e os jogos que produzo também os ajudam em seu desenvolvimento psicomotor. O meu caçula, por exemplo, sempre gostou de brincar com peças menores, então comecei a criar quebra-cabeças, que hoje são um dos carros-chefe da produção'', conta Belmont. Os jogos, que são produzidos em uma minimarcenaria no fundo da casa da família, são entregues mensalmente em uma loja e em uma papelaria da cidade para comercialização, além de ser vendidos na feira.
Por seu cuidado na fabricação dos jogos e por sua disposição em produzir artigos específicos para cada caso, o artesão virou referência entre psicopedagogos. ''No começo eu produzia jogos, simplesmente. Depois comecei a me informar junto aos profissionais da área e hoje são eles que me indicam os caminhos'', conta, mostrando pequenos álbuns onde estão disponíveis mais de 80 modelos de jogos, brinquedos educativos e quebra-cabeças.
O tradicional passatempo de juntar peças, fazendo os jogadores ''quebrarem a cabeça'' para formar um grande desenho ou imagem, é um dos que mais chamam a atenção da banca que Belmont mantém na feira. No último sábado, a diarista Regina Aparecida Caetano não resistiu, parou por ali e começou a dar forma a uma grande foto que o artesão transformou em jogo. ''Eu amo quebra-cabeça, mas nunca tive dinheiro para comprar, quando era criança. Agora, sempre que posso compro para minha filha de 11 anos'', confessou.
Já a fisioterapeuta Roseli da Silva Moreira Robles de Andrade é antiga conhecida do artesão e costuma procurá-lo quando precisa presentear amigos e familiares. A filha Júlia, de 10 anos, tem alguns jogos e brinquedos produzidos por Belmont.
''Sempre me preocupei, tanto no trabalho como na minha família, em valorizar o lúdico como aliado do raciocínio e do desenvolvimento psicomotor. Brincar é a melhor forma de aprender e favorece não só a criança, mas também a criança que existe dentro de cada adulto'', afirmou, antes de levar para casa um quadridor (jogo de tabuleiro em que o objetivo é atingir em primeiro lugar a linha oposta à linha de partida) para a filha.

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