Durante o mês de outubro, católicos de todo o mundo voltarão suas orações e doações para os padres e religiosos que dedicam-se a levar os ensinamentos de Jesus Cristo aos lugares mais remotos do planeta. Chamados de missionários, esses homens não apenas divulgam o catolicismo, mas enfrentam a distância, as diferenças culturais e as condições adversas para colocarem em prática os mais básicos conceitos cristãos.
Através de um trabalho que envolve a promoção da dignidade humana, eles colaboram para a melhoria das condições de saúde, educação, moradia e outras questões sociais nas comunidades onde se instalam. Anualmente, as iniciativas desses religiosos são reconhecidas em outubro, quando comemora-se o Mês Missionário.
Integrante da congregação Pontifício Instituto das Missões Exteriores (Pime), o padre John Raju Nerella nasceu na Índia, mas há nove anos vive no Brasil, onde conviveu com realidades diferentes na Amazônia, nas fazendas do Centro-Oeste e na Zona Urbana da região de Londrina.
A trajetória do pároco rende uma lição de antropologia. Oriundo de família católica em um país onde predomina o hinduísmo, ele estudou Teologia na Itália e, ordenado padre, foi enviado à região da Amazônia brasileira para cumprir a missão de anunciar o Evangelho às comunidades das margens do Rio Amazonas.
''Eu imaginava que haveria muitos índios, mas o que encontrei foi uma população ribeirinha bastante miscigenada'', contou. Foi ele quem comandou a construção de uma igreja local e, assim que a paróquia ficou auto-suficente, partiu para a cidade de Noiaque, no Mato Grosso do Sul.
Nos confins do Centro-Oeste, encontrou um novo desafio. Como a região é formada por grandes latifúndios, a população encontrava-se ''espalhada'' pelo território, o que dificultava o exercício de valores humanos e evangélicos, como por exemplo a solidariedade. ''Passei a realizar pequenas celebrações e confraternizações para o povo se conhecer'', disse.
Desde janeiro, o padre é vigário da paróquia Nossa Senhora da Paz, em Ibiporã (Norte), onde surpreendeu-se com a organização da comunidade católica. ''Nas cidades, os maiores desafios estão no resgate da família e da juventude.''
Padre Nerella aprendeu o básico do português em apenas três meses, como acontece com a maioria dos missionários. Segundo ele, a acolhida calorosa dos brasileiros ajudou a superar as primeiras dificuldades. Há quase dez anos no País, o religioso ainda sente saudade dos temperos, especiarias e da pimenta indianos, o que não o impediu de começar a apreciar pratos típicos como o peixe assado, o churrasco e o arroz com feijão.
A novela ''Caminho das Índias'', exibida recentemente na televisão, gerou curiosidade entre os fiéis sobre a terra natal de Nerella, que aproveitou a oportunidade de explicar mais profundamente o significado cultural de tradições que foram mostradas pela TV. ''A Índia tem 16 línguas oficiais e 2,5 mil dialetos'', exemplificou.
Favelas cariocas
Quando o padre colombiano Carlos Escobar ordenou-se, tinha vontade de ser missionário em países africanos como Etiópia e Moçambique, que enfrentam necessidades tanto espirituais como materiais. A primeira missão, entretanto, foi determinada no Brasil, onde ele vive há 14 anos.
A condição de latino-americano não impediu que o religioso se surpreendesse com a realidade brasileira. Enviado ao sertão da Bahia, padre Carlos jamais havia imaginado que, no País que concentra riquezas naturais e parte do território amazônico, houvesse também a seca. ''Fiquei impressionado com os quilômetros de território sem plantas ou animais. Mas também me surpreendi pela riqueza de fé, tradições culturais e solidariedade.''
Depois de acostumar-se ao sertão, ele foi trabalhar em favelas cariocas. ''Eu já tinha ouvido falar de favelas, mas não entendia o que era'', contou. As ruas estreitas, as casas pequenas e as condições de vida precárias impressionaram tanto quanto a religiosidade do povo carioca, presente no catolicismo e em outras manifestações.
''Participei de vários programas sociais em parceria com o poder público e ONGs'', relatou ele, que depois de quatro anos veio para o Paraná, onde trabalhou em Cascavel (Oeste) em movimentos específicos para a juventude. Em Londrina, é o pároco da paróquia Cristo Redentor, no Jardim Piza. Além disso, ajuda na articulação de pastorais e movimentos para os jovens na arquidiocese do município.
Natural de um país marcado pela violência e desigualdade social, chama a atenção do missionário a passividade do brasileiro perante a injustiça e a corrupção. ''Os brasileiros são festivos, emocionam-se diante de escolas de samba ou jogos de futebol, mas não se mobilizam perante a injustiça.''

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