Vida sem drogas é desafio de 'formandas'
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terça-feira, 20 de junho de 2000
Érika Pelegrino De Londrina 
Quando chegaram ao Recanto Maranata casa de recuperação para mulheres que são dependentes químicas muitas delas só pensavam em ir embora. Algumas chegaram até mesmo a tentar fugir. Outras resistiram à tentação de jogar tudo para o alto, cumpriram o período de um ano de tratamento e se integraram novamente à vida familiar. Nos dois anos de existência da casa, 75 mulheres das mais diversas idades já se formaram.
Na tarde do último domingo, quatro mulheres receberam o diploma que abre a porta de saída da casa de recuperação. Duas delas, ao contrário do que sentiram no começo do tratamento, não querem mais ir embora. E não há nenhum segredo para esta mudança de comportamento, apenas o recebimento de muita paciência, carinho e atenção.
M.R.P., 17 anos, é uma das formandas que, quando chegou, vinda de Presidente Prudente (SP), a única coisa que queria era voltar. Eu cheguei a tentar ir embora. Mas acabei ficando. M.R.P. foi encaminhada ao Recanto por uma assistente social de sua cidade devido ao seu envolvimento com drogas maconha, cocaína e crack.
A origem do problema de M.R.P. foi a mesma da grande maioria das garotas e mulheres que estão e que já estiveram no Recanto: desestrutura familiar. O envolvimento com drogas e álcool é apenas uma consequência. Ela tinha 10 anos e os irmãos 8 e 6 anos quando a mãe, então com 26 anos, perdeu a guarda deles. Isto porque deixava as crianças o dia todo sozinhas.
Durante um ano, a garota e os irmãos moraram com a avó, depois voltaram para a mãe. Aos 14 anos ela começou a usar maconha junto com as amigas. Em dois anos já usava cocaína e crack. Eu não queria, mas minha tia e minha avó convenceram minha mãe que eu precisava de tratamento, conta. No começo foi muito difícil ficar sem as drogas, eu só pensava em ir embora. lembra.
Com o passar do tempo, M.R.P. se apegou muito a Isabel Escudeiro Bento, a fundadora e responsável pelo Recanto. Ela é como uma mãe para mim. Eu não quero ir embora, mas vai depender da minha família. Hoje, a garota não sabe direito o que vai fazer, mas tem uma certeza: não quer mais saber de drogas.
Elena Pereira de Oliveira, 28 anos, resolveu se tratar depois que o Conselho Tutelar tirou seus dois filhos, um de 7 anos e outro de 6 anos. Eu não queria, mas se não viesse para cá perderia as outras crianças. Elena foi para o Recanto há um ano com uma filha que estava na época com 7 meses e outra que tinha 3 anos. Ela era dependente de cola de sapateiro e bebia muito, assim como sua mãe, que também é alcóolatra. O marido está preso.
Sua meta, ao sair do Recanto, é recuperar a guarda das duas crianças e conseguir um emprego. Ela já conseguiu um local para morar nos fundos da casa de sua mãe, no Jardim União da Vitória, zona sul de Londrina. Isabel Bento já fez uma proposta de emprego para Elena. Ela cozinha muito bem. Queremos que ela fique cozinhando para a gente.
Robenilde Campos Faria, 26 anos, veio de São Paulo para o Recanto porque sofre de depressão. Ela afirma que nunca teve problemas com drogas e que os primeiros sintomas de depressão surgiram depois que se separou do marido. Os médicos dizem que eu sofro de transtorno bipolar. As vezes eu tinha crises de euforia e outras vezes de depressão. Assim que chegou ao Recanto ela continuou com os medicamentos e o tratamento psiquiátrico. Até que cansei. Não tinha resultado. Parei de tomar os remédios e comecei a me fortalecer espiritualmente. Nunca mais tive nada.
Durante o período de um ano de tratamento, Robenilde deu à luz uma menina, hoje com um ano. Com o diploma na mão, ela não quer mais voltar para São Paulo. Meu medo é voltar para lá (São Paulo) e começar a lembrar de novo de tudo que aconteceu no passado, diz. Isabel Bento afirma que Robenilde deve ficar trabalhando como secretária no Recanto Maranata.
A outra formanda é C.L.R., 15 anos. Ela já está em Cornélio Procópio, morando novamente com o marido. A garota chegou ao Recanto por ordem judicial, depois de tentar matar uma pessoa durante uma briga. Deveria ficar seis meses. Acabou ficando oito meses. Ela era muito briguenta. Dizia sempre que não ia mudar. Depois de um tempo ela mesmo ria do que costumava dizer. Ela se transformou e hoje está muito bem com o marido.


