Curitiba Para quem faz valer o ditado ''somos aquilo que comemos'', ter uma horta se torna um sonho de consumo, sem exageros. Nada melhor que ter à mesa hortaliças fresquinhas, saborosas e sem agrotóxicos. Na cidade, a possibilidade de cultivar legumes e temperos é privilégio de poucos que ainda têm quintal e jardins em casa. Há quem consiga matar o desejo de plantar, nem que seja umas ervinhas, em vasos na varanda do apartamento. Mas nada substitui o prazer de ter um canteiro para colher seus próprios alimentos e acompanhar a maravilha da fertilidade da terra, hoje, relegada praticamente aos produtores rurais.
No perímetro urbano, existem pessoas que valorizam a origem dos alimentos que vão para o prato ao ponto de dedicar parte do tempo para plantar, aguardar o crescimento, colher da terra e finalmente degustar nas refeições diárias. Essa é a proposta do Programa Vida Rural, desenvolvido há mais de 15 anos pelo Clube de Campo Santa Mônica, em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba. Lá existem cerca de 250 lotes cada um com dois ou três canteiros , que ocupam uma área de 7,8 mil metros quadrados. Cada sócio pode plantar suas hortaliças para consumo próprio, com orientação de um engenheiro agronômo.
O sucesso do programa é tão grande que uma lista contém mais de 200 nomes de pessoas que aguardam a vez de participar. O sócio não paga nada, apenas é obrigado a frequentar, pelo menos duas vezes por mês, o espaço para cuidar da horta. ''Também não é permitido o uso de adubos, fungicidas e inseticidas químicos, apenas os orgânicos'', explica Perci Jorge Neto, engenheiro agronômo do clube, acrescentando que o programa mantém uma sementeira com cerca de 15 hortaliças da época para os ''agricultores''. ''Esse programa foi pensado para as pessoas que moram em apartamentos e não têm espaço para plantar em casa. Boa parte dos participantes é oriunda do interior, possui um passado com o trabalho na terra'', informa Dietmer Maass, diretor de ecologia e paisagismo do clube.
''O associado prepara a terra, tem mudas à disposição, planta e colhe. A educação é o forte apelo dessa atividade. Trago meus filhos desde pequenos e eles adoram. Temos nosso lote há 12 anos'', conta o auditor fiscal carioca Ronaldo Ferreira, 56 anos, que chegou em Curitiba em 1984. ''Eu vim de uma selva de pedra e aqui me deparei com tanta paisagem verde no meio urbano. Só fez incentivar minha vontade de trabalhar na terra'', lembra ele, destacando que o Vida Rural foi premiado no Congresso Brasileiro de Clubes, de 2002. Do seu canteiro, Ronaldo leva para casa beterraba, brócolis, salsa, couve manteiga, escarola e espinafre.
Já o aposentado, Masanobu Oyama, 77 anos, conta os dias para chegar a hora de cuidar dos canteiros. ''Meu pai trabalhou bastante na agricultura, tanto no sítio que tinha em Guaíra, como no Japão. Ele fica contente quando está aqui, só pelo fato de ter contato com a terra e colher o que vamos comer em casa'', disse o professor Luiz Oyama, de 46 anos. ''Os orientais consomem bastante legumes. Com o que colhemos aqui, economizamos cerca de um terço de nossas compras em supermercados'', informa Luiz, dizendo que cultiva couve roxa e manteiga, alho poró, alface crespa americana, couve-flor, brócolis e cebolinha.
É o prazer em plantar, ver o desenvolvimento das plantas e, principlamente, comer alimentos puros e naturais, que ®MDNM¯leva o aposentado Dirceu Lanoglia, 72 anos, a frequentar o clube toda semana, há quase 13 anos. ''Na minha casa, só consumo vegetais verdes daqui. Os filhos adoram e trago minha esposa e netinha para me ajudar, às vezes'', conta ele, que é natural de Ipiranga, onde morou numa fazenda com os pais. ''A vida de interior é muito boa, é mais pura e tranquila. Vir aqui me faz lembrar disso'', disse Dirceu.

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