Vida que renasce da doação
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quarta-feira, 10 de setembro de 2014
Viviani Costa<br>Reportagem Local 
Londrina A espera de três anos foi interrompida com uma ligação. Verônica Aparecida Pereira entrou em pânico. Em 40 minutos, a dona de casa estaria dentro do centro cirúrgico para receber o presente que tanto aguardava: um coração. "Eu chorei muito. Chamei um táxi e me despedi da minha filha mais nova como se eu fosse morrer. Sabia dos riscos da cirurgia. No caminho, liguei para a minha irmã em São Paulo e passei todas as informações para ela no caso de eu nunca mais voltar", contou, emocionada.
Verônica é cardiopata e só descobriu a doença no estágio mais avançado. Após dores de cabeça, dificuldades para respirar e até desmaios, os médicos chegaram à conclusão de que a única saída seria o transplante. Ela foi orientada a deixar o emprego e permaneceu durante três anos na rotina do menor esforço físico possível. As fortes emoções também teriam que ser evitadas. A exceção ocorreu no dia em que recebeu do hospital a notícia da existência de um doador.
Foram seis horas de cirurgia e o coração de um jovem trouxe vida nova à dona de casa. "É tão mágica essa sensação de você estar com um coração batendo no peito sabendo que o dono dele já morreu, mas que uma parte está viva dentro de você. Todos os dias eu agradeço a Deus, eu agradeço a ele, eu agradeço a essa família que doou. Eles me ressuscitaram. Esse rapaz salvou a minha vida."
Os beneficiados pelo transplante não recebem informações detalhadas sobre o paciente doador. As famílias que autorizam também desconhecem o destino dos órgãos retirados. A cirurgia de Verônica foi realizada neste ano. O processo de recuperação é delicado. Ela já está em casa, mas precisa realizar tarefas com o menor esforço físico possível. Os passeios ao ar livre devem ser evitam e só podem ser feitos com máscara. Por dia, a dona de casa ingere 18 comprimidos entre medicamentos necessários para evitar que o coração seja rejeitado pelo organismo e outras substâncias utilizadas no tratamento de doenças que surgiram em razão da cardiopatia. Os remédios são fornecidos gratuitamente.
Aos 48 anos com um coração de 18, Verônica aprendeu a esperar, passou a dar mais valor à vida e pretende fazer cursos na área de turismo. "A Verônica de antes não sentia estímulo para nada. A Verônica de agora valoriza cada segundo. Quero fazer esse curso de guia de turismo no ano que vem. Quero conhecer Ilhabela e muitos outros lugares que vejo na televisão. Agora é vida nova", comemorou a dona de casa, ao lado da filha Natali, de 13 anos.
Nem todas as famílias compreendem a importância da doação de órgãos. Como grande parte dos pacientes não manifesta, em vida, o desejo de se tornar um doador, a decisão acaba sendo tomada pelos parentes próximos, no momento da perda. Transformar o luto em uma nova vida foi o desafio enfrentado pela família da esteticista Shirlei Telles. Aos 53 anos, a mãe de Shirlei, Idenilda da Silva, sofreu um acidente doméstico. Ela foi internada às pressas após cair de uma escada.
Idenilda teve morte cerebral e os filhos decidiram pela doação de todos os órgãos da mãe. "Isso amenizou um pouco a dor. Parece que o nosso mundo caiu naquele momento e, com essa decisão, surgiu uma luz no fim do túnel", explicou, emocionada, a esteticista. Idenilda morreu em 2011, mas a saudade permanece. No último Dia das Mães que passaram juntas, elas comemoraram e tiraram uma foto com a filha de Shirlei, Maria Eduarda, de 8 anos. A esteticista guarda com carinho o último registro da mãe.
Shirlei passou a atuar na campanha de incentivo à doação de órgãos. "Esse trabalho é mais um filho para mim. É uma forma de preservar a memória da minha mãe. A morte a gente não aceita. Minha mãe está viva nas minhas lembranças. Ela está sempre comigo e também renasceu nos que receberam os órgãos dela", desabafou. Segundo dados da Central de Transplantes da Regional Norte, dos 71 casos de morte encefálica registrados nos 98 municípios atendidos, apenas 16 resultaram em doações de órgãos desde janeiro de 2014.


