Vida no batalhão é reproduzida no lar
Telma Elorza
De Londrina
Não são apenas policiais militares da praça de pré (soldados, cabos e sargentos) e seus familiares que sofrem com a tensão e o militarismo da profissão. As famílias dos oficiais também enfrentam problemas nas relações com o pai e marido militar. A afirmação é de uma dona de casa, casada com um oficial há mais de 10 anos. A gente vive em um quartel dentro da nossa casa, desabafa.
Ana (nome fictício) é esposa de um oficial do 5º Batalhão da Polícia Militar de Londrina. Ela entrou em contato com a Folha depois de ler a série de reportagens que o jornal vem publicando sobre a rotina estressante da profissão e quis dar seu depoimento. O sigilo sobre sua identidade foi a única condição para a entrevista. Se soubessem quem eu sou, meu marido sofreria as consequências e eu também. Lá dentro (no quartel) há represálias para quem se dispõe a dizer a verdade, aponta.
Vi ele crescer na profissão e se tornar um general dentro de casa. Meus filhos tiveram que passar por psicólogos porque o pai acha que, como tem subalternos no quartel, todo mundo em casa também é. Ele não fala com a gente, berra ordens, acusa Ana.
Ela diz que não se separou ainda porque os filhos são pequenos. Além disto, até a própria separação é malvista lá dentro, a menos que haja um motivo aceitável como o marido espancar a mulher ou ainda arrumar outra. Se acontece uma separação amigável, o homem leva a fama de corno, de frouxo, de não saber segurar a mulher em casa, explica.
A vida familiar, segundo ela, é uma constante tensão. Meus filhos só sabem dizer sim, senhor e não, senhor. Discutir uma ordem, nem pensar. É uma tortura psicológica que, quando você percebe, o mal já está feito. Para ela, porém, isto é apenas um reflexo do que acontece no Batalhão. A coisa vem de cima para baixo. Tudo o que acontece lá, ele reproduz em casa. E lá, se a pessoa não se adapta ou tenta mudar alguma coisa, eles até armam fatos para tentar excluí-la da corporação, justifica.
A experiência de Ana, ela reconhece, está limitada à sua própria vida. Por isto não pode afirmar, com certeza, se todas as famílias de oficiais também passam pelo mesmo. Eu já tentei puxar o assunto com outras mulheres mas, de todas, só uma me respondeu e disse que era assim mesmo. Simplesmente não se comenta sobre isso, conta. Para ela, porém, a submissão entre as mulheres é quase geral. Dá para notar como a maioria é submissa: elas estão sempre de olhos baixos, não encaram ninguém, aponta.
Segundo Ana, a intimidade e consequentemente confidências entre as mulheres de oficiais não é estimulada. Assim como nossos maridos não mantêm amizades estreitas, também não temos amizades entre nós, diz. Mulheres trabalhando fora também são poucas. Oficiais com esposas independentes não são bem-vistos. São poucas as esposas que têm curso superior e exercem a profissão, explica. Toda esta pressão, segundo ela, é extra-oficial. Não existe uma norma por escrito. Mas é quase lei, afirma.
Ana diz que o maior problema é o marido colocar a corporação acima de tudo. Meu marido ama a PM. E como ele gosta dela do jeito que é, talvez não enxergue todos os problemas que isto acarreta, diz. De acordo com ela, a corporação não passa valores e conceitos humanos para quem está lá dentro. A única coisa que importa para eles é que a instituição não seja abalada por nada. O que eles puderem abafar, vão abafar, comenta.





