Vida moderna acelera doenças auditivas
Cláudia Barberato
De Londrina
Estamos vivendo um abuso sonoro. Cada vez mais crianças e jovens engrossam a lista de problemas auditivos, o que antes era comum apenas em pessoas da terceira idade. A afirmação é da fonoaudióloga Iêda Chaves Pacheco Russo, da Universidade de São Paulo (USP). Iêda Russo esteve em Londrina para um curso de especialização em Reabilitação Auditiva do Idoso.
De acordo com Iêda, a vida moderna, com a exposição a ruídos em excesso, colabora para destruir a primeira camada das células ciliadas do ouvido humano. Hábitos alimentares inadequados, como alto consumo de gorduras por exemplo; somado a predisposição genética (pessoas mais velhas da família que perderam audição); doenças como diabetes ou renais; além do uso abusivo de medicamentos, especialmente os antibióticos, facilitam a degeneração auditiva.
O mundo de hoje vive de informações visuais. As pessoas estão mais voltadas às telas, da televisão, do computador, do cinema. Sem tirar a importância da visão, o que as pessoas estão fazendo com seus ouvidos? pergunta Iêda Russo.
Os cinemas diminuíram de tamanho. De uma grande sala, hoje se tem quatro e o nível de pressão sonora é o mesmo necessário para uma sala maior de projeção. Um dos filmes mais barulhentos dos últimos tempos, O Resgate do Soldado Ryan, por exemplo, apresentou um nível de ruído de impacto de 116 decibéis (db), quando o suportável é 85 db.
A Presbeacusia, que é o envelhecimento fisiológico da audição, segundo a professora da USP, pode ser acelerada por esses fatores. O estresse é outro vilão que destrói as defesas do organismo e colabora para perda da audição.
As medidas para preservar a audição começam desde o nascimento. É preciso ter maior qualidade de vida, alerta. A criança deve ter sempre um ambiente livre de ruídos. Nas festas de crianças é preciso orientar os pais para baixar o volume.
As alterações na audição podem começar na fase escolar, especialmente na alfabetização. É preciso estar alerta para crianças hiperativas, que não param nunca; ou as que ficam muito quietas e se isolam. Entre os 3 a 7 anos de idade há maior incidência de alterações. Criança que vai mal na escola, ou aquela que aumenta o volume da televisão, está dando sinais típicos. Resfriados mal curados também colaboram para perda lenta de audição.
É preciso criar o hábito de ir ao otorrinolaringologista, que pode fazer um diagnóstico. No tratamento de distúrbios de comunicação, reflexo da perda de audição, o indicado é procurar um fonoaudiólogo.
Jovens de 12, 13 anos também podem ser vítimas de problemas auditivos. Nessa faixa etária normalmente têm necessidade de fazer barulho, ouvir música. A música moderna é caracterizada pela percussão, que tem níveis intensos de pressão sonora. Não é que o jovem não possa mais ir a discotecas ou ouvir walkman, mas deve fazer isso com moderação.
Segundo dados do Ministério do Trabalho, o limite de pressão sonora é de 85 decibéis e acima disso o tempo de exposição ao som deve ser menor. Quando se tem um ambiente de trabalho onde há muitos ruídos, uma das maneiras de evitar problemas, aconselha Iêda, é ter um lazer silencioso.
A perda de audição acontece ao longo dos anos quando o organismo envelhece e passa a produzir menor número de células. Mas o que se observa hoje é que jovens de 15 a 18 anos já mostram sinais de perda de audição precocemente. O que acontecerá quando tiverem 35 anos?
A preocupação chegou aos Ministérios da Saúde e Educação, que promoverão de 8 a 10 de novembro a 2ª Semana Nacional de Prevenção da Surdez. Parte da campanha será feita nas escolas de 1ª série do ensino fundamental com um videoescola. A professora fará uma triagem das crianças que necessitam de uma audiometria, exame capaz de detectar problemas auditivos. Os exames serão bancados pelo Ministério da Saúde.





