Levante a mão quem um dia pertenceu à classe média. Dê um passinho pra frente quem se olha no espelho de manhã e repete ''pobre''. Cuidado, as convenções sociais estão se desintegrando. O sujeito considerado pobre é aquele que vive na penúria, possui posses modestas.
Nessa semana passada, todos os conceitos a respeito de classes sociais foram revistos. Na quinta-feira, numa manhã movimentada na rua Professor João Cândido, via central de Londrina, um andarilho foi avistado andando despreocupadamente. Estatura média, roupas sobrepostas encardidas, barba por fazer e cabelos desgrenhados. Enfim, uma aparência de quem não via banho há uns 30 dias. O tal andejo carregava um saco plástico transparente onde carregava todos seus pertences, tudo muito franciscano. Apenas uma cobertor corta-febre, uma panela amassada, algumas peças de roupas e alguns papéis.
O sem-teto parou em frente ao edifício da Sercomtel, empresa de telefonia local, colocou seus pertences no chão e tirou do bolso um telefone celular (!). E funcionava. O andarilho, que à primeira vista, seria digno de compaixão, teclou um número e começou a conversar como um homem de negócios, todo preocupado. Para quem passava por ali a cena superou o surrealismo, principalmente em função do local. Londrina foi uma das pioneiras na telefonia celular, foi alardeado. Mas ninguém poderia imaginar que o serviço fosse tão socializado.
Mais do que a cena em si, o que inquietou quem passava por ali foi o motivo da ligação. Para quem o mendigo estaria ligando? Como ele quebrou todas as regras de divisão de classes sociais, os motivos da ligação poderiam ser inumeráveis. Estaria o andejo querendo saber a cotação do dólar? Ou será que o mendigo queria se certificar do local da distribuição do sopão dos pobres da LBV?
Caso São Francisco de Assis tivesse que abdicar dos bens nos dias de hoje, ficaria sem celular? Até dá para imaginar a cena, ele tirando a roupa, jogando na cara dos pais e fugindo nu e de celular. Se Gilberto Braga, por exemplo, incluísse a cena de um mendigo de celular num de seus folhetins, isso poderia até ficar inconsistente, apelativo. Cada vez mais a realidade supera a ficção.

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