Vida de estudante é difícil
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quinta-feira, 10 de outubro de 2002
Ana Clara Garmendia<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Luz apagada, todo mundo dormindo. Luz acesa todo mundo estudando. Era sempre assim. Dia após dia, meses a fio o clima naquela casa era só esse. Estudar e dormir. Às vezes até de comer eles esqueciam. Maria Eulália explicava às amigas que era uma exigência da família. Todos tinham que passar o quanto antes no vestibular. Se um rodasse todos voltavam para casa. E aquilo representava um terror na vida deles.
A cidade onde haviam nascido era pequena, sombria e antiga. As casas eram acinzentadas. Lá só tinha gente velha. Não de idade e sim de atitude. Mesmo estando em pleno século 21, os costumes eram antigos. Moça só saía sozinha com a permissão dos pais. Casam cedo por lá. Depois do matrimônio, só saem com a permissão dos maridos. Então para ela e para as duas primas, Helena e Patrícia, o drama era o mesmo.
As duas escolheram cursos bem fáceis de passar e que tivessem características bem femininas para despistar os pais e primos que dividiam o mesmo apartamento. Depois de um tempo os garotos nem percebiam mais os sumiços noturnos das três jovens. Eram lindas. Loiras naturais, coisa rara de se ver nos dias de hoje.
Cada uma tinha uma característica própria. Uma seios fartos, outra as ancas sensacionais e a mais moça tinha longas pernas que, ao usar as minissaias jeans rasgadas com saltos altíssimos, acabavam por deixar os clientes ainda mais generosos na hora de pagar o cachê. Sim, era assim que as três estudantes de artes cênicas chamavam o pagamento que recebiam pelo trabalho sexual que faziam para a ''professora de piano''. Eram apenas duas vezes por semana, justamente nos dias em que Tiago e Felipe, os primos que dividiam com elas o apartamento, apagavam as luzes mais cedo. Tinham que acordar cedo no outro dia e nem viam nada.
Elas saíam por volta das 23 horas e voltavam lá pelas 5 horas. No outro dia acordavam os meninos com panquecas e pão quentinho. A última que chegava sempre passava na padaria e trazia tudo que eles mais gostavam. E assim a família continuava cada vez mais unida e feliz. As meninas estavam prosperando com as aulas particulares de piano que davam nas tardes de sábado. Deste jeito, tudo que aparecia de novo naquela casa como DVDs e CDs de lançamento só traziam aprovação dos primos e por consequência de toda a família, que sempre ligava aos domingos, depois que a gurizada voltava da missa. Elas só saíam com os primos. Era assim que funcionava naquela família.


