Vida de cabo eleitoral
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de agosto de 2002
Vânia Moreira<BR>Equipe da Folha 
Com o trabalho doméstico e os filhos a ocupar todo o tempo, as duas donas de casa nunca cogitaram a possibilidade de trabalhar fora, embora a renda apertada precisasse de um reforço. Até que chegou a campanha eleitoral e o convite para um trabalho temporário conciliável com os afazeres do lar, aparentemente fácil e rentável. As duas só teriam que percorrer os bairros para entregar santinhos aos moradores e pedir votos para os candidatos. ''Moleza'', pensaram .
Começaram pela vizinhança onde todos são conhecidos, recebem os santinhos, agradecem e até prometem votar nos candidatos. Os problemas começam quando batem à porta de desconhecidos. Na primeira casa, a dona se recusou a receber os santinhos e fechou a porta bruscamente, resmungando que tinha ''mais o que fazer''. As duas interpretram o incidente como ''coisa de gente mal educada'' e seguiram em frente.
Mais adiante, foram recebidas por um morador que pegou o santinho, reconheceu o político que disputa a reeleição e disparou. ''Eu não voto neste safado nunca mais. Achei que era gente boa, que defenderia os interesses do povo, mas ele passou os quatro anos defendendo os interesses do governo e dos cupinchas dele''.
As mulheres até tentaram defender o candidato, mas não conheciam nada do passado político do sujeito. Melhor ir embora...
Mas o pior ainda estava por vir. Em outra casa, o aposentado que já tinha visto de tudo no mundo da política e levantou outra questão: os gastos dos candidatos com a campanha. ''Como eles vão pagar essa papelada toda e o pessoal que está trabalhando? Vocês acham que eles vão gastar dinheiro do próprio bolso para defender o povo? Vão ganhar o dobro depois metendo a mão no dinheiro público, isto sim...'' ''Mas, meu senhor''.
Crente que seu recado chegaria aos candidatos, o aposentado continuou sem dar trégua. ''Vocês podem dizer para eles que eu vou votar sim, mas eu tenho certeza que vão roubar o dinheiro do povo. Candidato nenhum presta. Eu sei que é o povo quem acaba pagando os gastos da campanha''.
Depois de quase meia hora de discurso inflamado contra os políticos, as duas conseguiram 'se livrar' do eleitor e seguir caminho. ''Comadre, eu já tô com o ouvido doendo de tanto ouvir reclamação. Será que não é melhor pedir ajuda pra coordenação da campanha e contar que todo mundo mete a boca nos candidatos? ''Melhor não. Podem achar que nós é que não sabemos fazer o trabalho e dispensar a gente. Daqui pra frente vamos jogar os santinhos no quintal, embaixo das portas e sair de fininho''.


