‘‘Cirso’’ era o líder do tráfico de drogas em um dos morros de uma cidade no Norte do Paraná. O traficante não tinha medo. Acumulava passagens pela polícia por furto, mas sempre escapava, assim como seus ídolos da televisão. Em seu currículo ostentava furtos antes dos 15 anos, roubos após os 14 anos e tráfico ‘‘desde a época em que usava fraldas’’. Ele comandava uma ala da periferia. Seus ‘‘soldados’’ usavam revólveres calibre 38, ‘‘metrancas’’ (metralhadoras) e pistolas automáticas.
Cirso não havia completado o ensino fundamental e tinha 23 anos. Os pais não tiveram tempo para educá-lo, apenas para ensiná-lo a catar entulho no ‘‘lixão’’ da cidade onde morava. Sua única alegria era assistir à televisão em preto-e-branco, na casa do vizinho. A mãe morreu por causa de um deslizamento de terra e o pai teve as pernas amputadas depois que uma chapa de ferro caiu sobre elas.
Os negócios iam bem, mas sabia que não poderia permanecer muito tempo na área. ‘‘Vi na televisão que marginal tem vida curta’’, dizia. Cirso, então, planejou, em meio à bebida e cocaína, um assalto a um banco no centro da cidade. Havia pouco tempo. Então reuniu-se com seus comandados e deu as instruções. Faltavam apenas os veículos.
O grupo se aproximou de um ‘‘doutor’’, encostou o ‘‘cano’’ no vidro e deu voz de assalto. Não houve resistência. Em seguida, o bando tentou roubar um táxi, mas o plano deu errado: o taxista arrancou com o veículo e acabou sendo alvejado. O crime foi manchete na televisão. No depoimento, um dos comparsas de Cirso disse que o grupo não queria matar o taxista. Eles foram presos e condenados por crime hediondo.
Cirso, em sua primeira semana na prisão, foi encaminhado para o ‘‘seguro’’, um pavilhão para os presos que têm ‘‘broncas’’ com outros. Ele reclamou muito do local porque a cela era pequena e não havia televisão. Duas semanas depois, os agentes penitenciários o levaram para o ‘‘convívio’’, área em que mantém contato com outros presos. Minutos depois, após uma confusão, foi levado para a solitária. Antes, porém, os agentes explicaram que nos próximos dias seria levado para uma ala normal.
Nesse momento, um fato inédito aconteceu. Aquele homem que desafiou traficantes e policiais pediu clemência. Chorou. Cirso pediu para que não o colocassem naquela ala. Dias depois foi levado para a unidade que tanto temia. Na primeira página dos jornais do dia seguinte, em uma nota no canto da página, a sociedade teve a informação que ele foi morto por quatro detentos enquanto tomava sol. Os presos utilizaram estoques feitos com a armação de uma televisão. O delegado disse que ouviria os envolvidos na próxima semana.

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