Joelma era o tipo de mulher que adorava a marginália. Criada pela avó, cedo trocou os bailinhos do grêmio pelos bares da periferia e foi na mesa de sinuca, numa partida simbólica, que conheceu Russo, seu amor bandido. Como fogo morro acima ou água morro abaixo, ninguém conseguiu segurar a Jô depois que conheceu o moço de camisa aberta no peito, anel de prata, cinturão largo para disfarçar a arma guardada junto ao barrigão de cerveja. Era o demo em pessoa quando tratava com os moleques da Vila Miranda a entrega do pó e do crack para a burguesia da cidade. Os meninos acabavam se conformando em fumar a ração diária, ganhando quase nada pela venda das pedras que Russo conseguia fácil, abastecendo quase toda a região norte do Estado.
Russo encantou-se com Jô porque ela tinha carinha de anjo. Um anjo torto é verdade, mas bonita a ponto de parar a rua quando passava de minissaia, no alto dos tamancos que faziam sobressair as curvas. Quando a vó Santa desistiu de levar a moça ‘‘pelo caminho do bem’’, Russo resolveu bancar de vez a parada. Casaram na igreja, tudo dentro dos conformes, a festa reuniu a fina flor da bandidagem durante três dias de bebedeira e pó servido em bandeja de inox. Russo queria do bom e do melhor. Gostava de imitar o charme dos ‘‘bacana’’. No fim, fungava tanto e tinha o maxilar tão retesado que parecia um boneco de cera balançando a barriga ao som de ‘‘Brown Sugar’’. Jô sentiu-se deusa, primeira-dama do crime da Vila Miranda, para desespero da avó que não aceitava um tostão do bandido, fazendo piquete na porta de casa quando o marido da neta aparecia com os amigos para tomar café.
Um dia o coração de Jô amanheceu apertado. Russo não voltara de Ourinhos, para onde tinha levado um carregamento de cocaína que deveria chegar a São Paulo no fim de semana. ‘‘Os home prenderam o patrão’’, disse Alaorzinho tão logo Jô abriu a porta para receber o resto da notícia fatal: ‘‘Ele reagiu e dançou furado de bala’’.
O chão sumiu aos pés de Jô. Na cabeça os bons momentos passaram como um filme. A mesa de sinuca, a camisa aberta no peito peludo, o anel de prata que reluzia ao fogo do isqueiro. O amor bandido foi embora. ‘‘Deixou a mulher e dois filhos’’, a notícia ecoava na Vila Miranda com rapidez de relâmpago. A fina flor da bandidagem já programava enterro de princípe, com o corpo baixando à cova aos primeiros acordes de ‘‘Brown Sugar’’. Mas o delegado Brandão proibiu toda e qualquer manifestação de amizade. Russo foi enterrado discretamente.
Depois disso, Jô perdeu o brilho da juventude. Os pés antes calçados com sandálias de salto começaram a arrastar chinelos de dedo. Nas pernas as primeiras varizes azularam. Os filhos foram crescendo em lar modesto porque a dama do crime não quis herdar o império. Como lembrança dos bons tempos, sobrou o aparelho de DVD. Nas noites quentes, quando sente a sombra de Russo por perto, ela se acomoda no sofá para assistir ‘‘O Poderoso Chefão’’ e sonhar com a retomada do fausto. Às vezes prefere ligar a TV para ver ‘‘Linha Direta’’ só para lembrar que ‘‘o crime não compensa’’, como dizia vó Santa antes de pegar gosto pelo tráfico. Hoje é a velha quem comanda o movimento do crack na Vila Miranda.

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