Vida a bordo é como em uma casa, mas com menos espaço
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sábado, 11 de outubro de 1997
Curitiba 
Kraw PenasNa sala, o maior ambiente do barco, uma grande mesa funciona como ponto de união da famíliaO dia-a-dia a bordo do Yaya, quando estão ancorados em algum iate clube, se parece com o cotidiano de qualquer casa. Jacqueline vai ao supermercado, lava roupa, cozinha. Tarefas como lavar o convés e fazer algum reparo nas velas são divididas. As crianças estudam e brincam, e Philippe aproveita para vender suas esculturas.
Swanne, cinco anos, corre descalça na frente, sobe a bordo com a agilidade de quem nasceu sobre as ondas e depois grita para a mãe, em francês: Mãe, eu quero mostrar o meu quarto. É a pequena guia que vai desvendando os espaços do Yaya. Cabelos louros encaracolados e dois olhinhos azuis no meio de um salpicado de sardas vão apontando: Aqui, o meu quarto e o da minha irmã; aqui, o banheiro; aqui o quarto de brincar.
Sim, parece mesmo com uma casa, mas em pequenas e bem planejadas proporções. O quarto de brincar, por exemplo, encaixa-se no triângulo formado pela proa. Com forro de lona xadrez e dezenas de bichinhos de pelúcia e jogos, o cantinho é o sonho de qualquer criança de terra firme.
Na sala, maior ambiente, uma grande mesa funciona como ponto de união da família: é ali que as crianças estudam, que Philippe abre as cartas de navegação, que Jacqueline lê ou escreve. Os sofás, embora estreitos, são disputados para dormir durante longas e agitadas travessias, porque o centro do barco é o local mais estável. Nas prateleiras embutidas, dezenas de livros, álbuns de fotografia, souvenirs de terras exóticas. Sob a mesa, outra mini-biblioteca, com os livros escolares das crianças. Monique estuda por correspondência em um instituto francês. O equivalente à secretaria de educação na França envia as provas, que a menina cumpre e depois devolve, pelo correio. Swanne ensaia as primeiras letras e números.
No compacto e bem dividido espaço dentro do barco, há um lugarzinho para cada objeto. Nas paredes, os desenhos e fotos das meninas lembram que ali é um lar. Um cantinho é o atelier de Philippe. Lascas de madeira, formões, espátulas e obras semi-acabadas mal deixam espaço para que o artista possa criar suas esculturas. Mas ele cria. E sua obra reflete um pouco do que vê mundo afora, quase sempre com temas marinhos. Como verdadeiras colagens, ele faz quadros-esculturas, que saltam da dimensão da moldura, com pedacinhos de madeiras naturalmente coloridas, uma de cada canto do mundo.
A popa é reservada para o casal. Nichos abrigam as roupas, impecavelmente dobradas, alguns livros e um computador. Um minúsculo espaço é a ducha.
A cozinha, parte da sala, não é muito diferente de uma cozinha em terra firme. Estão lá a pia, o fogão - que é móvel, para acompanhar as oscilações do veleiro e com isso manter as panelas sempre na horizontal - e a geladeira, plugada no gerador elétrico.
A disciplina nos horários ajuda a organizar a rotina. Pela manhã, as meninas dedicam-se aos estudos. Mas temos flexibilidade. Se há oportunidade de um passeio para conhecer alguma coisa da região, o estudo fica para a tarde ou é recuperado no dia seguinte, explica o pai. Achamos que o contato com as pessoas e os costumes é também uma forma de aprendizado. (M.C.S.)


