Viaturas escoltaram ônibus de sem-terra
James Alberti
De Curitiba
Comboios de carros da Polícia Militar escoltaram os 12 ônibus que levaram os sem-terra para suas localidades de origem, depois da desocupação. Ônibus de diversas empresas foram contratados para o transporte, entre elas a Sulamericana, Princesa dos Campos, Viação Garcia e Reunidas.
O primeiro a deixar o Centro Cívico foi o ônibus da Sulamericana, placas AAV-0816. Ele saiu em disparada pela Avenida Cândido de Abreu, sob forte escolta. Eram 6h35. Duas viaturas da Rone números 4565 e 435 davam cobertura com as sirenes ligadas.
Policiais motorizados engrossavam o cortejo e à medida que se aproximavam do Parque Barigui em direção à Rodovia do Café, foram se dispersando, de volta ao local de origem.
A equipe da Folha acompanhou também os primeiros 30 quilômetros da viagem dos trabalhadores que foram levados para Quedas do Iguaçu, no Sudoeste do Estado. Nove viaturas e duas motos fizeram a escolta. Dentro do ônibus, a maioria dos sem-terra era formada por mulheres e crianças.
Na cabine, além do motorista, seguiam dois soldados de um grupo de elite. Por poucos minutos a reportagem ficou ao lado do ônibus. Tempo suficiente para os sem-terra colocarem a cabeça para fora das janelas e gritarem frases como eles me agrediram.
À medida que os comboios ganhavam a estrada, tinha início uma nova fase da operação policial no Centro Cívico a derrubada dos barracos de lona preta por um batalhão de funcionários da Cavo, empresa concessionária da limpeza pública de Curitiba. Os primeiros começaram a ser destruídos às 7 horas e seus despojos jogados nos caminhões abertos da Cavo.
Os operários da empresa desmontavam o cenário, que durou cerca de seis meses, sob o comando de um engenheiro, de nome Ricardo, que tirou o crachá de identificação. Ele não queria contato com a imprensa e disse não saber quantos funcionários estavam ali. À medida que chegam na sede, são mandados para cá, respondeu.
É triste, né? A gente é mandado, tem família pra cuidar, desculpou-se um dos homens, constrangido. Mais adiante, um colega contava a um grupo de pessoas que quando chegaram ali, encontraram os sem-terra deitados no chão, em fila, no centro do acampamento.
Se eu soubesse que ia acontecer isso, não tinha nem vindo. Mas por outro lado, a gente é trabalhador. A firma manda e a gente tem que cumprir seu trabalho. Pelos seus cálculos, estavam ali 20 caminhões, com cerca de 80 operários.
Fora do grupo Dois acampados foram os únicos não atingidos pela desocupação pela PM. Eles não estavam no acampamento no momento do cerco. Doralice Oliveira Lima, 36 anos, tinha sido internada na noite de sexta-feira, e estava na casa da mãe (confira foto na página 14). O outro foi Celso Godoi, de 24 anos, que tinha saído para passear à noite e voltou na hora do cerco. Os líderes chegaram depois porque nunca pernoitavam no acampamento.
Doralice conseguiu entrar na praça logo que a polícia liberou a aproximação dos populares. Do lado de fora, o sem-terra Celso Godoi provocava os policiais, falando palavras de ordem e criticando a postura dos soldados. Quem vocês acham que planta o que vocês comem? Acham que a comida de vocês é importada dos Estados Unidos?, perguntava.
Por várias vezes, Godoi discutiu com os soldados que faziam o cordão de isolamento do acampamento dos sem-terra. Foi ameaçado de prisão por desacato à autoridade. Brigou e chorou.
No final do despejo, Godoi cantava cantigas e o Hino Nacional com os companheiros, enquanto observava os barracos serem destruídos. Com um pão numa mão e um pé de alface na outra, ele estendia os braços e oferecia aos PMs, que protegiam os trabalhadores da Companhia Auxiliar de Viação e Obras (Cavo), que desmanchavam os barracos de lona. Colaborou Emerson CerviPrimeiro veículo levando famílias retiradas do Centro Cívico deixou o local às 6h35. Destino: Quedas do Iguaçu, no Sudoeste do PR
Kraw PenasTENTATIVA INÚTILO advogado Darci Frigo, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), tenta impedir saída de ônibus que deixava a Praça Nossa Senhora Salete. Grupo de policiais corre para abrir caminho para o veículo





