O engenheiro e economista Armando de Oliveira Vianna diz ser ‘‘um homem assustado’’. No dia 8 do mês passado, quando saía do prédio onde mora, na Rua Hermes Fontes nº 123, em Pajuçara, bairro de Maceió, um homem desceu de um Corsa que se aproximava e disparou quatro tiros em sua direção. Vianna atirou-se ao chão, entre o meio-fio e sua perua F-1000, e conseguiu escapar. Sem revelar como chegou, ele hoje está escondido em Curitiba, cidade onde morou quando estudante. Circula pela região da Praça Rui Barbosa, como um fugitivo.
Vianna é um arquivo-vivo, jurado de morte por Augusto Farias, irmão de Paulo César Farias, o tesoureiro do esquema de corrupção do governo Collor. Envolveu-se até a alma com a quadrilha de PC, para quem trabalhou como testa-de-ferro de uma conta no Deutsche Bank em Frankfurt, na Alemanha. Desse conta, que chegou a ter, em certa época, US$ 1 milhão, ele enviava remessas mensais de US$ 100 mil para Fernando Collor, pagava Augusto Farias e outros apaniguados. Ganhava US$ 10 mil por mês pelo trabalho.
Sua vida passou a valer menos de um tostão furado quando ele viu o corpo de PC Farias estendido sobre a cama da casa de praia de Guaxuma. Suzana Marcolino, a namorada do mafioso, estava viva, o que joga por terra a hipótese de homicídio seguido de suicídio. Ao passar a Augusto Farias, de quem não gostava, parte do dinheiro do esquema PC (ficaram US$ 400 mil na conta alemã), recebeu como última tarefa enviar US$ 300 mil para uma conta misteriosa num banco em Nova York. Vianna tem uma suspeita: o dinheiro teria ido para o legista Fortunato Badan Palhares.
‘‘Estou marcado para morrer’’, disse o fugitivo no primeiro contato com a Folha, por telefone. Dias depois, marca um encontro. Seu raciocínio é superarticulado, ele tem nomes e datas na ponta da língua. É convincente como um santo. Na semana passada, teve sua história e foto publicadas na ‘‘Isto ɒ’.
‘‘Sei que vou ter de pagar multa pesada por evasão fiscal, mas quero limpar meu nome’’, diz. ‘‘Amanhã cedo vou para o Uruguai com meu filho, oficial da Aeronáutica, de onde negociarei onde vou depor. Mas quero garantias de vida e não vou a Maceió, pois sei que serei morto. Ontem mesmo fui procurado por dois homens no hotel Promenade, onde me hospedei.’’ O tom do fugitivo é mesmo dramático e sua promessa, excitante: ‘‘Amanhã entrego todos os documentos.’’
Encerrada a entrevista, Armando de Oliveira Vianna pega R$ 20 emprestados, despede-se e some feito um vampiro de Dalton Trevisan. Não importa que ninguém o conheça em Maceió, que os endereços não existam, que sua empresa não exista. O fingidor está convencido que sua mentira é tão verdadeira como ele. O mentiroso acredita ser Armando de Oliveira Vianna, o homem que lidava com dólares e tomava uísque com PC Farias.

mockup