Viajante dá exemplo de realização de um sonho
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quarta-feira, 18 de agosto de 2004
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
O paulista Raphael Karan, 43 anos, é uma daquelas pessoas que nos fazem sonhar. Após uma conversa com esse homem que deixou uma vida estável para percorrer os cinco continentes em uma motocicleta, é impossível não se questionar: ''Será que eu também poderia?''.
Se fizermos a mesma pergunta a Karan, ele vai dizer que sim. Foi essa a tônica da palestra proferida pelo viajante em Londrina, ontem, na Universidade Filadélfia (Unifil). Em entrevista à Folha, ele contou que esteve na cidade em 2000, onde fez a segunda parada de uma viagem de oito meses, partindo da capital paulista até o Alaska. Tendo em mãos um recorte da edição da Folha de 8 de janeiro daquele ano, onde aparecia montado em sua moto Aprilia 650, ele lembrou o começo de uma jornada que, para muitos, ainda parece loucura.
''A história começou no final dos anos 70, quando eu era adolescente, e li uma matéria sobre um colombiano que abandonou a família e ficou 11 anos viajando pelo mundo com sua moto. Fiquei anos sonhando com aquilo até que, em 1999, decidi que 'a hora havia chegado' '', fala. Mas àquela altura, Karan não tinha exatamente o perfil de um homem desprendido. Casado, formado em Administração e bem empregado como executivo num shopping center, ele causou espanto ao avisar que largaria tudo.
''Convidei minha mulher para ir comigo, mas ela não quis. Acabamos nos separando. Pesquisei mapas rodoviários do mundo inteiro, traçando rotas para os cinco continentes. Busquei patrocínio para o projeto mas não consegui. Vendi meu carro e resolvi que iria pelo menos até o Alaska.'' Essa primeira viagem consumiu oito meses. A ela, seguiram-se outras duas, sempre partindo de São Paulo: em 2001, Karan rodou a Europa por três meses; de lá, percorreu grande parte da Ásia por mais 14 meses; em abril de 2003, partiu para a Austrália e a Nova Zelândia, para só voltar ao Brasil em março deste ano.
Durante toda essa trajetória, a vida de Karan mudou radicalmente. Ele se acostumou ao desconforto, às intempéries e até à fome. Sem poder carregar peso em excesso, a bagagem sempre se resumia a: uma barraca, um saco de dormir, um colchonete, um fogareiro, seis camisetas, uma calça, duas bermudas, chinelo, meias e cuecas, além de ferramentas e máquina fotográfica. Um dos ítens mais importantes era um copão de plástico, usado para funções variadas como beber, comer, fazer a barba e até tomar banho.
''Você vai se acostumando, ampliando seus limites, derrubando barreiras. As pessoas não fazem idéia do que são capazes até experimentar. Dá solidão, dá medo, mas você convive com isso em prol de uma recompensa muito maior'', diz. Além da própria perseverança, Karan contou com a generosidade de habitantes dos 40 países que percorreu, ganhando permissão para acampar em quintais de casas ou fazendas.
Antes de completar o percurso pelos cinco continentes depois de 97 mil quilômetros rodados, só falta a África o aventureiro busca patrocínio para unir estrada e solidariedade. Ele quer rodar o Brasil durante um ano, dando palestras em troca de alimentos, que seriam distribuídos a famílias carentes. Com tantas viagens em mente, ele nem pode pensar em constituir família, por enquanto. ''A não ser que eu encontre alguém que me pergunte 'e aí, tem lugar pra mim na garupa?''.


