Via rápida
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de junho de 2002
Lúcio Flávio Moura<BR>Reportagem Local 
Fim de outono mais quente esse. Estava a divagar enquanto caminhava pela Leste-Oeste, o caminho mais curto até o centro. Essa falta de umidade, essa garganta seca. O articulado passa abarrotado. Nunca mais vi aquela menina bonita do Vivi Xavier.
O trânsito intenso oprime menos. O canteiro central é amplo até demais. Vem a lembrança do trem que nunca vi. Vejo duas cidades e uma só. Vejo prédios de um lado e horizonte do outro. A cidade ainda parece dividida pelo trajeto ferroviário. Quase trombo com o ciclista apressado. O aposentado faz jogging em horário inadequado e reclama da altura da grama. Já está escondendo o meio-fio e começa a engolir a trilha de concreto. Estavam na televisão, os canteiros de Seul tão bem cuidados...Por que não conseguimos fazer o mesmo? Por que não temos dinheiro para nada, nem para cortar grama? Por quê?.
Ibiporã está ao alcance dos meus olhos e acho engraçado saber que alguém de lá pode estar olhando para cá. As distâncias parecem reduzidas. Acho uma Londrina pequena.
Vejo garotos maltrapilhos e uma dupla de drogados incomodando uma prostituta. Vejo um carro acelerado, beliscando o meio-fio. Sinto medo. Acho uma Londrina grande.
Como tem moto nessa cidade!. Começo a pensar que não é civilizado alguém pagar para andar na garupa de uma moto e acho ainda menos civilizado o Estado se preocupar em regulamentá-lo. Subdesenvolvimento.
O cão sarnento escapa de um atropelamento por milagre. A senhora está chorando. Meus olhos a acompanham. Ela entra em uma igreja pentecostal. Nunca mais a verei. Atravesso a pista sem entender por que o Chevette embala tanto para ser barrado pelo sinal vermelho. Concluo que há muitas outras faltas de bom senso no trânsito e quase tropeço quando me deparo com a última capa da Playboy: o outdoor em ponto irregular me olha lascivamente.
O terminal já está próximo quando o primeiro cigarro é filado. Fumante entende fumante. Fumante é solidário. Fumante é burro. Acendo o primeiro do maço e penso que a onda antitabagista vai nos tirando esta idiota liberdade. Cof, cof, cof, cof.
Já estou no Terminal. Vejo a Leste-Oeste de cima. Os personagens não têm mais rosto e a curva esconde o trajeto de reflexões. Não consigo pensar em mais nada. Tenho fome e sede. Vou ao carrinho de cachorro quente. Resolvo meu problema e começo a assistir à TV da plataforma. O documentário é sobre o urso panda e a cultura chinesa. Fico absorto e abandono as superficialidades.


