Vestígios da revolução em Joaquim Távora
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quarta-feira, 06 de junho de 2007
Widson Schwartz<br>Especial para a Folha 
Joaquim Távora - Menos de 15 dias após eclodir a revolução em 3 de outubro de 1930, o general Miguel Costa deu a conhecer mensagem aos ''defensores do Catete'' - o palácio presidencial no Rio de Janeiro - alertando-os de que seria inútil resistir e lhes oferecendo garantia para que averiguassem tal evidência. Usando o termo ''convidamos'', o revolucionário sugeria ao Ministro da Guerra que enviasse aviões em reconhecimento sobre as ferrovias desde Itararé (SP), passando pelo Paraná, a Marcelino Ramos (RS), na divisa com Santa Catarina, ''podendo aterrar em nossos campos de Piraí (do Sul), Ponta Grossa e Castro, onde serão supridos, por nós, de tudo que necessitarem''.
Os aviões não seriam inutilizados, ''sob palavra de honra'', e o fim da resistência evitaria que se continuasse o ''inútil derramamento de sangue''.
Já em 14 de outubro, Getúlio Vargas recebia ''confirmação da primeira vitória importante das nossas forças'', no sentido de passar ao Estado de São Paulo, ''próximo a Jacarezinho, no Paraná''. Anotou detalhes em seu diário: ''Cinco horas de fogo, o inimigo retira-se para Carlópolis, deixando em nosso poder apreciável material de guerra e prisioneiros (entre) soldados e oficiais''. Compunham-se as forças adversárias de ''elementos do Exército e polícia paulistas'', comandados pelo coronel Pais de Andrade. ''As nossas, do 7º Batalhão de Caçadores de Santa Maria, sob o comando do Stoll Nogueira, da Brigada Etchgoyen.''
E Miguel Costa sitiou Itararé, que entra na história com a ''batalha que não houve'', porque o confronto em armas se deu ao Norte do Paraná, em Sengés, Quatiguá e Affonso Camargo - atualmente Joaquim Távora (a 52 km de Jacarezinho). Estão desaparecendo em Joaquim Távora o que se supõe tenham sido duas trincheiras dos paulistas, feitas com pedras, no fundo de um vale coberto por densa vegetação.
Para descer e subir uns 15 metros de barranco quase a prumo, o presidente da Companhia de Desenvolvimento de Joaquim Távora, Joel Alvarenga, a moradora Wilma de Pizol e o fotógrafo da FOLHA Evandro Monteiro usaram corda. Retornaram com a imagem de uma das trincheiras, em grande parte destruída, mais recentemente atingida por uma árvore que tombou. Muito difícil seria chegar até à outra, tão atravancado estava o caminho.
João Mendes de Oliveira, que tem um projeto turístico envolvendo a ferrovia e já desceu no vale, também está convicto de que eram trincheiras, levando em conta relatos e a rota de tropas legalistas (ou governistas) procedentes de Ourinhos para combater revolucionários em Quatiguá, a dez quilômetros de Joaquim Távora. Improvável, porém, um combate naquele sítio mais parecendo esconderijo.
Aquela ''primeira vitória importante'' mencionada por Vargas ocorreu nos dias 12 e 13 de outubro em Quatiguá, então um distrito policial, enquanto o município de Affonso Camargo fora instalado em setembro de 1929. Pelo ramal saindo de Jaguariaíva, os revolucionários chegaram de trem, ''transpuseram a estação de Quatiguá e prosseguiram para Affonso Camargo'', relata Aureliano Leite, autor de um livro baseado em depoimentos, editado em 1931. ''Afinal, aqui (em Affonso Camargo), no dia 12 de outubro, tiveram (os revolucionários) contato com os primeiros adversários.'' (*)
A Revolução é tema da disciplina de História em Quatiguá, onde estudantes ouviram contemporâneos. Sabe-se que o prefeito Miguel Dias, de Affonso Camargo, e o político Athalyba Leonel, de Piraju (SP), ao lado dos legalistas, planejaram arrancar os trilhos em alguns pontos. Não existe, porém, registro do que sucedeu. Embora as tropas revolucionários estivessem engrossadas por catarinenses e paranaenses, afirma-se que o confronto foi entre paulistas e gaúchos, estes cinco mil, ao entraram no Paraná, segundo Miguel Costa.
De trem, os estados-maiores civil e militar da revolução e as ''tropas de vanguarda'' encontraram-se em Ponta Grossa, dia 17. Getúlio Vargas anotou: ''Passamos Teixeira Soares e, enfim, à tarde, chegamos a Ponta Grossa, segunda cidade do Paraná, próspera, ciosa das prerrogativas e independência. Baluarte do liberalismo, onde, apesar da pressão governamental, ganhamos a eleição de 1º de março. Somos recebidos com entusiástica manifestação, a maior (...) depois de sair de Porto Alegre''.
(*) ''Memórias de um revolucionário: a Revolução de 1930 - Pródromos e Conseqências''.


