A sala localizada em uma rua da região central de Londrina foi concebida para o atendimento das clientes que fazem depilação e massagem com Marilda Aparecida da Silva, de 49 anos. Mas ao lado da maca e dos equipamentos que ela utiliza no trabalho, paredes e prateleiras cobertas de lingeries, cosméticos, maquiagens e acessórios mostram que a massagista exerce também outra atividade: como muitas mulheres, ela pratica a venda direta de produtos inerentes ao universo feminino para complementar a renda.
  As compradoras são as próprias clientes do estabelecimento. ‘‘Muita gente já sabe que vendo esses produtos e me procura quando precisa dar um presente’’, exemplifica ela, que consegue incrementar a renda em 30% com o comércio.
  Como tantas outras personagens de médias e grandes cidades brasileiras, Marilda nasceu na Zona Rural e, quando mudou-se para a cidade, iniciou a vida profissional realizando trabalhos domésticos. ‘‘Durante 13 anos trabalhei como cozinheira’’, conta. Na época, vendia roupas a domicílio nas horas de folga, atividade que continuou exercendo após fazer o curso de massagista e mudar de profissão. ‘‘Eu atendia na casa das clientes e já levava os produtos para vender. À noite, ainda ia para a escola.’’
  Batalhadora, Marilda é o eixo central da família de 11 irmãos. Entre as conquistas obtidas com o trabalho, estão uma boa casa ‘‘construída sem financiamento’’, um carro, casas para dois irmãos e a vida confortável com direito a pelo menos uma viagem de férias por ano. ‘‘Já fui escrava do trabalho, mas hoje faço meu tempo’’, ensina.
  O segredo para o sucesso na área de venda direta é a necessidade de pouco investimento e a escolha de produtos com boa saída.‘‘Quase tudo que vendo é consignado. Além disso, são coisas que se vendem sozinhas, não preciso nem oferecer.’’
  Aos 41 anos, Márcia Gomes de Magalhães Kilim já criou dois filhos, ajuda a cuidar dos netos, é a responsável pela mãe doente e sonha em ser dona da própria confecção. Mãe aos 16 anos, sempre conciliou a dupla jornada de trabalho, em casa e no mercado formal, com ‘‘bicos’’ para complementar a renda. Roupas e artesanato eram os produtos comercializados, que sempre garantiram a Márcia uma renda maior que a do marido.
  Hoje a família trabalha junta em função do mesmo projeto. Donos de um bazar, produzem artesanato para comercializar no próprio negócio e em outras lojas da cidade. A filha Grasiely, 26, mãe de Mateus e Gabriel, mora com os pais e ajuda no que for preciso.
  ‘‘O que era bico acabou virando profissão’’, explica Márcia, que está aprendendo a costurar para vender roupas prontas. Nas horas de folga, ainda corta o cabelo de familiares e amigos. ‘‘Manter a família é uma responsabilidade pesada’’, justifica. A força para batalhar pelos sonhos veio do amadurecimento precoce e da crença de que é preciso lutar para conseguir melhorar de vida. ‘‘Sou do tipo que cai, levanta, sacode a poeira e começa de novo.’’
  O hobby da auxiliar de limpeza Luci Maria Monline de Oliveira, 51, também se transformou no complemento da renda da família. Há dois anos ela faz decupagem em pratos, móveis e objetos de decoração, atividade que a tornou conhecida no bairro onde mora. ‘‘Aprendi em uma escola da comunidade Saltinho e passei a fazer para mim. As amigas gostaram e comecei a vender’’, conta.
  Segundo Luci, o artesanato serve para distrair, mas acaba ajudando quando o dinheiro acaba antes do final do mês. ‘‘Se estou sem dinheiro e vendo alguma coisa, acaba reforçando o orçamento. Gosto muito de fazer artesanato e, se pudesse, viveria só disso.’’
  A secretária municipal da Mulher, Sueli Galhardi, comenta que muitas mulheres entram no mercado informal atraídas pela flexibilidade de horários. Ela alerta, porém, para o risco de não poder contar com aposentadoria no futuro. ‘‘O ideal é que contribuam como autônomas. É preciso criar uma cultura previdenciária e de poupança’’, recomenda.

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