Milton DóriaPor que só nós?Guergoletto, em depoimento ao promotor Galatti, ameaça citar nome dos envolvidos: ‘Alguns que deveriam ser ouvidos não vão ser’ O vereador Célio Guergoletto (PMDB) prestou ontem depoimento ao promotor especial de Defesa do Patrimônio Público em Londrina, Bruno Galatti, sobre as contratações irregulares de 212 funcionários pela Companhia Municipal de Urbanização (Comurb), no início do ano, sem realização de concurso público. As suspeitas, que estão sendo apuradas por Galatti, são de que pelo menos cinco vereadores teriam indicado parentes, amigos ou cabos eleitorais para ocuparem cargos na companhia. O pagamento dos salários dos funcionários iria direto para a conta bancária dos ‘‘padrinhos’’.
Ao final de seu depoimento, ainda na sala do promotor, Guergoletto lamentou que apenas cinco vereadores - além dele, Jaci Aguiar (PDT), Orlando Bonilha (PDT), Carlos Kita (PTB) e Jorge Scaff (PDT) - iriam passar pelo ‘‘constrangimento’’ de prestar depoimento. ‘‘É uma pena, porque alguns que deveriam ser ouvidos não vão ser’’, apontou. Depois acrescentou: ‘‘Não gosto de nominar pessoas mas, se for o caso, mais para a frente a gente cita os nomes.’’ Ele disse ainda que teria ‘‘documentos’’ para mostrar, mas não quis revelar maiores detalhes.
Guergoletto fazia parte do Conselho de Administração da Comurb e participou da reunião em março que decidiu pelas 212 contratações. Na época, lembrou ele, o então presidente da companhia Cléber Tóffoli expôs a necessidade das 212 contratações. E mais: essas contratações seriam feitas de acordo com a Lei Municipal 6.387/95, de autoria do próprio Guergoletto, que prevê a realização de teste seletivo em casos emergenciais. ‘‘Na primeira conversa não se falava em teste seletivo. Eu fui um dos primeiros que exigiram a aplicação da lei.’’
O vereador foi chamado por Galatti porque, segundo a suspeita, ele teria sido o ‘‘padrinho’’ de um dos contratados da Comurb, Paulo Sérgio Ferreira Júnior - que, na época da contratação, trabalhava como assessor para o vereador. Paulo Sérgio era funcionário particular de Guergoletto, que o pagava com recursos próprios. Na Câmara, o vereador tem direito a dois funcionários com salários pagos pela Casa, mas Guergoletto mantinha mais dois com recursos próprios.
Segundo Célio Guergoletto, em abril Paulo Sérgio teria comentado que soube das contratações na Comurb e que iria tentar uma vaga, já que o salário era de aproximadamente R$ 400 (ele ganhava R$ 200 como assessor parlamentar). Poucos dias depois Paulo Sérgio lhe passou a informação de que precisaria de uma ‘‘referência’’ para ser contratado.
‘‘Eu estranhei, porque sabia que seria necessário o teste seletivo para a contratação. Mas também não achei nada demais ligar lá e dizer que ele era um funcionário exemplar. Fiz isso com o propósito de ajudá-lo’’, diz, apontando que não se recordava se tinha falado ou com o ‘‘João Batista’’ ou com ‘‘Eduardo Alonso’’, ambos funcionários da Comurb. Em maio, Paulo Sérgio começou a trabalhar na Comurb, desligando-se do gabinete.
Quatro ou cinco dias depois, no entanto, o vereador recebeu a notícia, do mesmo Eduardo Alonso, de que o ex-funcionário ‘‘surpreendentemente’’ poderia prestar serviços na Câmara. Paulo Sérgio voltou a trabalhar no gabinete de Guergoletto, das 13 às 19 horas, fazendo o mesmo serviço que fazia antes. Mas o vereador garante que, apesar da ligação do funcionário com a Comurb, ele foi tratado novamente como funcionário particular, recebendo salário diretamente de Guergoletto. ‘‘Ele trabalhava à tarde comigo’’, diz. ‘‘Mas na Comurb eu não sei. Eu ignorava o que estava acontecendo lá.’’
Ainda segundo o vereador, assim que voltou ao gabinete Paulo Sérgio pediu um empréstimo de R$ 1,2 mil. ‘‘Eu adiantei a ele cinco salários, que representavam os R$ 1,2 mil e que seriam descontados gradativamente de seu salário’’, diz. Para levantar o dinheiro, o vereador diz que precisou fazer um empréstimo junto ao Banco do Brasil, em nome de outra funcionária da Câmara. Ele diz ainda que em momento algum foi cogitado que o empréstimo seria pago com o salário da Comurb e que não depositou cheque da Companhia na sua conta.
Célio Guergoletto lembra que não chegou a receber nenhuma parcela do empréstimo, já que no mês seguinte surgiu a polêmica em torno das contratações e Paulo Sérgio recebeu aviso prévio da Comurb. Outro motivo: na mesma época, ele garante, surgiu uma oportunidade de o funcionário ir passar temporada nos Estados Unidos. ‘‘Não sei se ele viajou ou não’’, observa. Mas garante que o funcionário deixou de trabalhar também na Câmara e que não pretende cobrar pelos R$ 1,2 mil que pagou adiantado em salário, já que Paulo Sérgio ‘‘era funcionário exemplar’’.
No seu depoimento, Célio Guergoleto afirmou também que, logo depois das contratações na Comurb o então diretor-presidente, Cléber Tóffoli, foi questionado sobre a irregularidade nas reuniões do Conselho de Administração. Após a divulgação das contrações, Cléber Tóffoli pediu demissão do cargo e o atual diretor-presidente da Comurb, Kakunen Kyosen, abriu investigação logo ao assumir o cargo.

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