Vereador exonera assessor e tranca porta do gabinete
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de dezembro de 1997
Célia Baroni Londrina 
O vereador Orlando Bonilha (PDT) exonerou, ontem, o chefe de seu gabinete Wilson Lima Saraiva da Fonseca e determinou que o seu assessor, pastor José Maria Góes, passe a fazer apenas serviços externos à Câmara. Eu sou o vereador e eu decido como deve funcionar o meu gabinete, justificou. E mais: trocou as fechaduras do gabinete e definiu que a partir de agora apenas ele fará uso do espaço, vedando o acesso do pastor ao local quando estiver ausente.
Ontem, enquanto o vereador participava da sessão, o gabinete permaneceu fechado. Bonilha argumentou que exonerou o chefe de gabinete por razões administrativas, mas deixou claro que as relações entre ele e o pastor Góes estão rompidas. Ele colocou a carroça na frente dos bois.
Bonilha é um dos vereadores que está sendo investigado pela Promotoria de Defesa do Patrimônio Público. Ele está sob suspeita de ter indicado parentes e amigos para assumir cargos na Companhia Municipal de Urbanização (Comurb), recebendo dinheiro em troca. Em entrevistas recentes, o pastor Góes confirmou que Bonilha recebia os cheques de pagamento da Comurb de alguns dos funcionários indicados por ele.
Entre os nomes indicados por Bonilha estavam o de sua esposa, Luciana Silvia Menezes; do irmão Luiz Proença; do cunhado Carlos Alberto de Pádua; de Herivelto Dutra de Pádua e Wilson Oliveira Andrade. A Promotoria de Defesa do Patrimônio Público rastreou um cheque de pagamento feito pela Comurb a Andrade, na conta do vereador.
Em entrevista publicada na Folha, Góes justificou a transação como uma forma de ajudar os funcionários que não tinham conta bancária. Disse, no entanto que, na troca, o valor entregue aos funcionários era menor que o do cheque da Comurb. Segundo ele, os funcionários colaboravam voluntariamente com o vereador, doando parte de seus salários. As sobras disse, eram depositadas na conta de Bonilha.
Ontem à tarde o pastor disse estar magoado e ofendido com a atitude do vereador. Tenho 46 anos, nunca passei e não esperava passar por uma situação dessas. Segundo ele, Bonilha teria repetido várias vezes que perdeu a confiança nele. Ainda não sei como vai ser no futuro. Mas acho que o próprio vereador não vai mais querer que eu continue trabalhando com ele.
De janeiro a abril deste ano, a Comurb contratou 212 funcionários sem realização de concurso público, alegando situação emergencial. Alguns funcionários da lista foram cedidos para outros órgãos e mesmo quem não estava efetivamente trabalhando recebia os salários da Companhia. A situação irregular foi denunciada à Promotoria pelo Sindicato dos Servidores Públicos (Sindserv).
A maioria dos funcionários contratados irregularmente foi exonerada. A Promotoria permitiu que 96 ficassem até a realização do concurso, para não inviabilizar os erviços prestados à comunidade. Após o episódio, o presidente da Comurb, Cléber Tóffoli, deixou o cargo, sendo substituído por Kakunen Kyosen.
A denúncia de que vereadores teriam participado da irregularidade indicando parentes e conhecidos para os cargos da Comurb só chegou à Promotoria após o início das investigações. Além de Bonilha, estão sendo investigados Carlos Kita (PTB), Célio Guergoletto (PMDB), Jorge Scaff (PDT) e Jaci Aguiar (PDT). Ainda segundo as denúncias, haveria funcionários fantasmas e alguns vereadores estariam recebendo os salários.
O promotor de Defesa do Patrimônio Público, Bruno Galatti, ouviu o depoimento de mais de 40 funcionários da Comurb e dos vereadores Orlando Bonilha e Célio Guergoletto. O vereador Jaci Aguiar foi chamado a depor mas não compareceu à audiência. O promotor pretende concluir as apurações até o dia 15, último dia das sessões ordinárias da Câmara.


