Vereador aliado diz que
vista não permite leitura
Ervandil Pires, que foi o encarregado da defesa política de Padeiro, na sessão da Câmara, protagoniza situação hilariante. Gaúcho de nascimento, agricultor, 52 anos e 37 de Vera Cruz do Oeste, ele garante que é apenas o ‘‘problema da vista’’ que o impede de ler, nas sessões ou em qualquer lugar. Mas não se interessou em procurar oftalmologista. Mesmo negando ser analfabeto, o vereador afirma que ‘‘é melhor o cara ser analfabeto que mexer na coisa pública’’, referindo-se aos recursos públicos.
Ervandil conta que fez ‘‘o 2º ano da escola’’ e que assumiu o cargo de 1º secretário da Câmara porque havia dificuldades de composição entre os demais vereadores. ‘‘O cargo não dá vantagem, assumi só para ajudar’’, relata, acrescentando que quem deve ‘‘julgar’’ a questão do analfabetismo ‘‘é a população’’, cuja maioria tem origem mineira e nordestina. O ‘‘julgamento’’ já estaria feito, segundo ele: este é seu segundo mandato, conquistado com 219 votos, a maior votação entre os candidatos de seu partido.
Nas sessões da Câmara, quem lê atas e outros documentos é o 2º secretário, Paulo Sérgio Cardoso. Quando da discussão sobre a cassação de Padeiro, Cardoso ficou horas lendo a íntegra do processo. Vereadores de oposição, como Daniel Nunes Martins (PFL), Carlos José de Carvalho (PTB) e Francisco Vitorino, evitam comentar a eleição de Ervandil para o cargo, até para não aumentar mais a confusão.
De sua parte, o prefeito Padeiro, catarinense de nascimento, 60 anos, 14 dos quais na cidade, garante que ‘‘alguma dificuldade’’ que possa ter, no manuseio de documentos, não é problema para que possa administrar o município. ‘‘Todo prefeito tem seus assessores e eu tenho dos bons’’, relata, acrescentando que eles ‘‘se encarregam da papelada, mas eu avalio tudo’’. Para que não pairem dúvidas, ele se cercou de pessoas de seu relacionamento pessoal, em cargos na prefeitura.
Uma filha de Padeiro é chefe de Gabinete, um genro cuida das finanças e um enteado do setor de Obras. ‘‘Dizem por aí que empreguei 14 parentes, mas isso é mentira’’, afirma o prefeito, responsável por um orçamento anual de R$ 5 milhões, boa parte dele para pagar os 240 funcionários. Padeiro também acha que ‘‘o povo’’ já o ‘‘julgou’’ nas urnas: ganhou a eleição em todas as urnas e com vantagem de 1,5 mil votos sobre o segundo colocado, em um universo de seis mil votos depositados. (P.P.)

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