Verdades ou suposições na leitura labial
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de julho de 2006
Guilherme Borges<br>Reportagem Local 
Troca de ''carinhosos elogios'', orientações técnicas ou pedidos de ajuda ao céus foram algumas das frases reveladas aos torcedores brasileiros por uma equipe de deficientes auditivos a pedido de um canal de televisão, na cobertura da Copa do Mundo. Explorando a curiosidade humana, a atração pode ser considerada como divertida para a maioria das pessoas, mas questionável para especialistas.
A professora Vera Lúcia Diogo Lima, que trabalha há 25 anos no Instituto Londrinense de Educação para Surdos (Iles) e é mãe de um deficiente auditivo, ressalta a imprecisão da tradução a partir da leitura labial. ''Respeitando o ritmo, você pode colocar qualquer coisa na boca de outra pessoa. Basta ver os filmes dublados'', sugere.
Ela não acredita que todas as frases traduzidas tenham sido dito exatamente como foram veiculadas. Isto porque é possível que alguns ângulos filmados poderiam prejudicar a leitura. ''Tem algumas cenas que são laterais, o que torna muito difícil saber exatamente o que foi dito. Teria que ser uma pessoa bem treinada, e mesmo assim ela poderia errar, pois a língua tem palavras com articulações orais parecidas, o que faz com que o apresentado seja mais uma suposição que uma verdade'', argumenta.
É sob esta perspectiva, de divulgar como exato algo que é provável, que a professora de ética do curso de jornalismo da Universidade Norte do Paraná (Unopar), Sônia Lenira Nunes de Carvalho, coloca em xeque a atração televisiva. ''Qual o grau de veracidade e precisão desta leitura labial? Isto precisava ser apresentado ao telespectador, que passou a acreditar naquilo que foi passado como verdade inquestionável'', reflete.
Além disso, ela indaga se aqueles técnicos ou jogadores deram autorização para que fosse traduzido e exposto o que eles falaram em âmbito privado, pois apesar de estarem em lugar público com centenas de câmeras, quando se dirigiam a alguém - como foi a ofensa do jogador italiano Materazzi ao francês Zidane -, faziam isto de maneira particular. ''Eles estavam num espaço público, mas numa situação reservada, o que complica a análise'', afirma.
Para o advogado Rafael Mazzer de Oliveira Ramos, o fato do canal de TV ter feito a leitura labial a partir das imagens gravadas não tem qualquer implicação jurídica e que uma autorização implica na outra. ''Se os atletas autorizaram a veiculação da prórpia imagem, supõe que estavam conscientes desta possibilidade de leitura dos lábios'', argumenta.
Ele explica que, de acordo com a lei brasileira, o jogador francês, por exemplo, até poderia utilizar as imagens em um processo por danos morais ou queixa-crime contra o italiano. ''Existem peritos técnicos que fazem este trabalho de leitura para a justiça, por isso que os jogadores deveriam considerar que estavam sendo filmados'', defende.


