Ventania, ''o ar em toda a liberdade''
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sábado, 28 de abril de 2007
Widson SchwartzEspecial para a FOLHA 
Ventania - A partir de Londrina pela BR-369, cruzando o Rio Tibagi e entrando pela Rodovia do Cerne (PR-090), em Jataizinho, são 183 quilômetros até Ventania, município de 9.267 habitantes a Nordeste, onde termina a paisagem característica do Norte Velho e começa a dos Campos Gerais. Os poucos cafezais ficaram em Curiúva; adiante, pastagens se alternam com a soja por vezes ocupando espaços entre fileiras de araucárias.
Quem saiu do verão de 30 graus em Londrina (altitude de 600 metros sob o Trópico de Capricórnio, no Norte Novo), sente menos calor em Ventania, a 990 metros e com alguns pontos passando de 1.100 nos arredores. A temperatura varia entre três e cinco graus para menos, comparativamente.
De passagem pela região entre 26 de janeiro e 4 de março de 1820, o botânico francês August de Saint'Hilaire anotou que ''embora aí geie em todos os invernos, pode-se dizer que o clima é temperado; os ventos são frequentes, o ar circula em toda a liberdade''.
Atualmente, essa ''liberdade'' continua notável, principalmente no inverno. ''Se você pegar o vento de leste, meu amigo, é de chorar'', diz o fazendeiro e cineasta Homero Camargo Ribas, estudioso da região. O topônimo Ventania se relaciona ao clima, mas chegou a virar nome de gente, havendo uma história centenária que, acredita-se, começou a ser transmitida pelos tropeiros que paravam na Fazenda Fortaleza, fundada pelo coronel José Félix da Silva no século 18 e que deu origem a Tibagi, município do qual se desmembraria o de Ventania, muito recente, instalado em 1993. Os tropeiros falavam de um vendaval que assolara a região. No livro sobre as origens e nomes de cidades paranaenses, João Vicente Ferreira menciona ''um tufão'' em 1870.
Morto José Félix, a Fazenda Fortaleza passou a seu único neto, Manoel Inácio, e deste os herdeiros venderiam o que seria uma parcela, denominada ''Invernada Ventania'', a Francisco Pinheiro das Chagas, em 1892. Tão forte era a referência que o novo proprietário, tornando-se conhecido por ''Francisco Ventania'', resolveu incorporar o apelido ao nome de família, registrando-o em cartório e permitindo que parentes também o assinassem.
Desde então, pouco restou das matas ao norte e dos capões de araucária ao sul, devastados pelas madeireiras, perdendo-se um pouco daquele frescor; provavelmente os invernos hoje são menos rigorosos, considerando-se que, desde a década de 1940, nunca mais nevou na região.
Testemunha da neve, Ayrton Scheffer contou que tinha 10 anos de idade quando a família viajou, em carroça, de Tijucas do Sul (região de Curitiba) a São Jerônimo da Serra. ''Peguei neve.'' Foi em 1940, pouco adiante de Ventania, no atual distrito de Barro Preto, segundo o depoimento de Ayrton para um livro sobre São Jerônimo e região. Os Scheffer viajaram 19 dias na carroça puxada por dois cavalos.
Por sua vez, a historiadora da Indústria Klabin de Papel, Hellê Vellozo Fernandes, relata ''o excepcional inverno de 1942'' na Fazenda Lagoa, num dia em que ''os homens foram tocados pelo encantamento de ver terras e árvores, casas e carros envolvidos pela neve silenciosa'', enquanto as mães tentavam conter o entusiasmo das crianças saltando e gritando no meio dos flocos, faces rosadas de frio. Europeus ali trabalhando pareciam sentir-se na terra de origem.


