Veneno pode ser matéria-prima para medicamentos
Curitiba Para pegar a larva de um besouro, seu alimento, a aranha marrom se aproxima e injeta o veneno na cabeça do bicho, paralisando-o. Essa característica chamou a atenção dos especialistas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que, em pesquisas, descobriram que o veneno atua como relaxante muscular. Outra descoberta refere-se às propriedades anticoagulantes do veneno. Isso significa que o veneno da aranha poderá servir de matéria-prima para a fabricação de medicamentos em caso de trombose, por exemplo, atuando na desobstrução dos vasos sanguíneos, ou contra dores musculares.
O estudo das toxinas presentes em venenos e secreções de animais peçonhentos para uso na fabricação de fármacos faz parte do projeto ''Biodiversidade, Toxinas e Aplicações Biotecnológicas'', desenvolvido pela equipe da UFPR. Recentemente, os estudos ganharam mais força com o convênio fechado junto com a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, que vai garantir recursos do Fundo Paraná.
A equipe já descobriu três toxinas presentes no veneno da aranha marrom e uma toxina no veneno da lagarta Lonomia, que também possui grande potencial farmacêutico. Uma das descobertas mais importantes, segundo o professor Oldemir Mangili, refere-se à capacidade das toxinas de agir sobre tumores. Testes feitos com tumor de rim ''in vitro'' de ratos mostraram que o veneno desorganiza a estrutura celular da membrana que reveste o tumor. ''Seria um anticancerígeno excelente'', diz o professor.
Os pesquisadores da UFPR trabalham, também, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na descoberta de uma vacina contra o veneno da aranha. Estudos com coelhos mostraram que ao injetar a bactéria Clostridium perfringes, presente no veneno, o animal produz grandes quantidades de anticorpos que neutralizam o veneno total da aranha. Segundo o professor, esta seria a primeira vacina contra animal peçonhento.
Um dos problemas para as pesquisas é a pequena quantidade de veneno, que é retirado de uma aranha a cada vez. Cada aranha fornece uma gota de cerca de 25 micrograma de veneno. ''É muito trabalho. Temos que tirar o veneno de uma por uma, entre 100 a 150 por vez'', diz o professor. Para obter mais veneno, os cientistas estão recorrendo ao método de clonagem molecular.
A clonagem consiste na extração do material genético da glândula de veneno, que é implantado em bactérias. Essas bactérias incoporam o material dentro de seu próprio patrimônio genético, passando a produzir elas mesmas o veneno da aranha marrom. A grande vantagem é que as bactérias produzem grande quantidade do veneno, ao contrário da aranha. ''Vamos poder isolar as toxinas, purificar e ver o potencial farmacológico delas. Isso vai incrementar a indústria farmacológica do Estado'', diz Mangili. (M.G.)





