Vendedor é agredido por PMs e morre em viatura
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segunda-feira, 10 de março de 1997
Paulo Ubiratan 
Marcos BorgesRevoltaCerca de 500 pessoas foram ao velório de José Idalécio Bueno: laudo diz que morte foi por asfixiaO vendedor José Idalécio Bueno, 33 anos, pastor licenciado da Igreja Evangélica Quadrangular, morreu numa viatura da Polícia Militar, no final da tarde de domingo, após ter sido abordado e, segundo testemunhas, espancado por PMs. Estão envolvidos no caso o sargento Levi Teófilo, os soldados Antonio Marcos Pereira, Anilton Rodrigues e João Reis, além dos policiais rodoviários identificados apenas como Aloísio e Tomé.
José Idalécio havia passado a tarde na sede campestre do Grêmio Recreativo e Literário Londrinense e voltava para um culto evangélico, em Ibiporã, dirigindo um Opala. Foi na rodovia que o sargento Teófilo começou a perseguir o carro da vítima, presumindo que o motorista estivesse bêbado. O sargento dirigia seu próprio Fiat, placas AGV-2240.
O sargento, que nega as agressões, relata que também viajava em direção a Ibiporã e, ao tentar ultrapassar o Opala, teria sentido que o motorista jogava o veículo, não permitindo a ultrapassagem. O motorista vinha fazendo ziguezague na rodovia e, por diversas vezes, cortou minha frente. Ele disse que em certo momento conseguiu ultrapassar o carro de Bueno. No posto da Polícia Rodoviária, na BR-369, já quase em Ibiporã, ele parou o Fiat e deu sinal para José Idalécio estacionar.
Segundo a mulher do vendedor, Mara Bueno, e o filho do casal, Rodrigo Martins Bueno, 13 anos, que presenciou o fato, a pancadaria começou logo que José Idalécio parou o carro, recebendo um tapa no rosto. A cena foi presenciada por outras seis testemunhas. O filho disse que chegou a pedir, chorando, para que os policiais parassem de bater no pai.
Marcos BorgesDocumento de José Idalécio Bueno
De acordo com a versão contada pelo sargento Teófilo ao delegado de Ibiporã Joaquim Gonçalves Pigarro, ele teria apenas pedido para que o vendedor o acompanhasse até o posto policial. Eu não o agredi, apesar de ele ter me agredido verbalmente.
A versão de Teófilo é contestada pelo filho e pela esposa de Bueno. Logo que paramos o carro, o policial militar se aproximou, abriu a porta e aplicou um tapa no meu marido. Na sequência, o Bueno saiu do Opala e começou a questionar o porquê da agressão. Senti que ele ficou muito nervoso, mas mesmo assim não contestou ao ser conduzido até o posto. Mara contou que, em seguida, o soldado Antonio Marcos chegou ao posto rodoviário, e teria ajudado nas agressões. O sargento tentou usar o bafômetro da Polícia Rodoviária mas estava estragado. A todo momento ele dizia que ia levar o Bueno para a delegacia. Sou evangélica e algo me dizia para eu ir buscar ajuda, disse a mulher. Ela saiu e deixou o filho junto com o pai. Segundo Mara, o carro estava com problemas na direção.
Rodrigo relatou que, após a mãe sair do local, chegou uma viatura policial de Londrina, chamada pelo sargento Teófilo. Os policiais mandaram meu pai entrar na viatura, mas ele não obedeceu alegando que poderia ir em seu carro. A partir daí, o sargento Teófilo pegou meu pai pelos cabelos e começou a empurrá-lo para o lado da viatura.
Em seguida, Bueno teria sido derrubado no chão e um dos policiais teria se ajoelhado sobre sua cabeça, enquanto os outros tentavam algemá-lo. Eu pedi para que não fizessem aquilo, mas eles (os policiais) não davam atenção, diz Rodrigo, que também viu quando seu pai foi jogado dentro da viatura e teve os pés torcidos por dois policiais.
Bueno foi levado à delegacia mas, ao perceberem que ele estava mal, os policiais o levaram para o hospital Cristo Rei, em Ibiporã, onde chegou sem vida. Segundo laudo não oficial do Instituto Médico Legal, ele apresentava hematomas por todo o corpo e teria morrido asfixiado pelo próprio vômito.
Em 1982, Bueno foi candidato a vice-prefeito de Ibiporã pelo PDT e em 96 se candidatou a vereador pelo PSB. Ele trabalhava com o pai como vendedor de material para usina de açúcar. Tinha três filhos menores. Seu corpo foi enterrado ontem, no Cemitério Padre Anchieta (zona leste de Londrina). Mais de 500 pessoas compareceram ao velório.


