Tão invisível quanto perigosa, a ameaça ambiental representada pelos resíduos de medicamentos já afeta o Brasil e também o Paraná. Enquanto persistem a negligência dos governos (federal, estadual e municipal), a irresponsabilidade da indústria farmacêutica e a desinformação da população, as moléculas que curam seguem contaminando de maneira perigosa, principalmente a água. Os primeiros seres vivos afetados (aves e peixes) já dão sinais de alerta.
Farmacêutico e representante do Conselho Regional de Farmácia do Paraná (CRF-PR) na Comissão de Vigilância Sanitária e Meio Ambiente do Conselho Estadual de Saúde, Javier Gamarra defendeu, em 2007, tese de mestrado na Universidade Positivo sobre o impacto ambiental de resíduos de fármacos no esgoto de centenas de municípios do Paraná e classificou a situação como ''muito séria''. Ele identificou que os efluentes de 51 dentre 104 cidades pesquisadas estariam sob risco ambiental em relação ao anti-inflamatório ibuprofeno, um dos mais usados. Em outras 12, de um universo de 319, estariam também sob risco relacionado ao diclofenaco. No total, a pesquisa abrangeu 333 municípios.
Conforme o pesquisador, as causas dessa contaminação estariam ligadas a práticas que as pessoas nem se dão conta de que são perigosas ao ambiente, como o uso inadvertido de medicamentos (automedicação, dosagens incorretas). O farmacêutico lembra que a questão é séria porque o País é um dos 10 maiores consumidores mundiais de medicamentos e a tendência é de aumento do consumo nos próximos anos. Ele explica que parte do que é ingerido é eliminado pela urina ou fezes, cai na rede de esgoto doméstico, chega à estação de tratamento - ''que não dispõe de tecnologia para remover todos os resíduos'' - e acaba nos rios.
Outra via importante de contaminação é o descarte das sobras de medicamentos (vencidos ou não) diretamente no vaso sanitário ou no lixo doméstico. Fruto da falta de orientação da população, esse hábito - que chega a ser incentivado por autoridades em saúde - potencializa os riscos de contaminação, inclusive do solo. A questão se agrava pelo fato de que apenas 36% do esgoto gerado no Brasil recebe tratamento, segundo dados recentes apurados pelo Instituto Terra Brasil. Tal prática ainda abre caminho para as intoxicações. O Ministério Público em Curitiba já recebeu reclamações de intoxicação de crianças que garimpavam em aterros sanitários com os pais e acabaram ingerindo comprimidos.
Gamarra lamenta que mesmo assim, ao contrário do que ocorre na Europa, EUA e outros países, o problema até o momento é muito pouco estudado no Brasil e, menos ainda, combatido. ''Não temos acesso nem mesmo aos dados sobre consumo de medicamentos, o que seria importantíssimo para detectarmos os reais danos ambientais''.
A química Eliete Lamardo, que estudou a contaminação por fármacos nos sedimentos do estuário do Porto de Santos (SP) em pós-doutorado defendido na Universidade São Paulo (USP), concorda que, até o momento, os governos parecem não se preocupar com o problema. ''Não há nenhuma regulamentação que defina o descarte correto de sobras de medicamentos'', reclama. Ela lembra que pesquisadores identificaram efeitos nocivos sobre peixes e bactérias e que, embora não haja consenso científico sobre os riscos ao homem, os pesquisadores advertem que muitos resíduos são potencialmente tóxicos também aos humanos, pois podem provocar, por exemplo, o desenvolvimento de câncer de mama, testicular e próstata. (Leia mais sobre o assunto na pág. 3)

mockup