Rafaela falou do desejo de ter uma família unida. Lucas, da importância de cuidar da natureza. Ambos têm apenas 9 anos, mas deram uma lição de maturidade e consciência ecológica ao concorrerem com suas redações no Programa Agrinho. Resultado: conquistaram os primeiros lugares do Norte do Estado na categoria 1 a 4 série, nos temas Cidadania e Meio Ambiente.
A garota Rafaela Monieli Xavier de Oliveira não sabe se é uma cidadã ''de verdade'', mas ao contar sua história certamente comoveu os integrantes da banca examinadora, formada por representantes de quatro secretarias do Estado, especialistas que elaboraram o material do programa, técnicos do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural do Paraná (Senar-PR) e professores de universidades.
Estudante da Escola Municipal Professora Clélia Maria de Oliveira Albuquerque, em Santa Margarida (distrito de Bela Vista do Paraíso, 40 quilômetros ao norte de Londrina), ela falou sobre o que não tem e tudo o que povoa seus sonhos, em um raio-x cruel das crianças que crescem sem pai por perto e muito próximas dos fantasmas da pobreza.
A premiação do concurso aconteceu no último dia 20, em Curitiba, com a participação de mais de 800 pessoas, entre premiados e acompanhantes. Os trabalhos vencedores foram escolhidos em um universo de 3,2 mil. Em três parágrafos, Rafaela fala de sua rotina, da vontade de conhecer o pai, do desejo de ter uma casa, de ser policial, e mostra como uma garotinha com menos de uma década de vida pode ser um exemplo de maturidade (leia nesta página cópia de sua redação).
''Ela rezava todos os dias para ganhar esse concurso, mesmo assim, quando chegou com a televisão, perguntou se eu não queria vender o aparelho para pagar dívidas'', conta a mãe da garota, Creuza Xavier Messias. Apesar do desejo de ter uma TV no quarto, a sorridente Rafaela permitiu que o namorado da mãe levasse emprestado seu prêmio para casa, sem que ela pudesse sentir o gostinho da pequena mordomia.
Sobre o seu texto, ela diz que quis mostrar a importância de todos terem uma família. E soube, desde o início, que a redação tinha chances de classificação. ''Todos os dias ela nos perguntava se tínhamos alguma novidade'', conta a professora Nadir de Fátima de Oliveira, que a incentivou a escrever.
Lucas Sales Vicente não sabia direito o que dizer em uma redação sobre meio ambiente, então perguntou para a mãe como era antigamente, e chegou à conclusão de que até alguns anos atrás os recursos naturais não recebiam o devido valor. Além de ganhar um aparelho de TV, ele ganhou consciência. ''Agora eu sei que não pode demorar muito no banho e não deixo meu pai ficar lavando muito o carro'', revela o garoto, aluno da 3 série da Escola Municipal Hikoma Udihara, em Londrina.
A redação de Lucas foi escolhida entre aproximadamente 500 na escola. Depois, concorreu com mais algumas centenas, em todo o Estado. ''Foi uma surpresa quando soube que tinha ganho'', confessa o aluno.
Para a professora Marta da Silva Bevilacqua Dias, foi bom ver como os organizadores do concurso valorizaram a linguagem simples - e ao mesmo tempo rica - das crianças. ''Percebemos que havia outros textos ótimos, mas que eram mais técnicos'', conta. Entusiasmada, Marta sabe que está ajudando a plantar uma importante semente. ''Incentivá-los a discutir assuntos como o meio ambiente e a participar de iniciativas como esta é preparar os cidadãos do futuro.''
O Programa Agrinho é realizado há 11 anos em parceria entre a Federação de Agricultura do Paraná (Faep), com apoio do governo do Estado, prefeituras, sindicatos rurais e outras instituições.

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