Em uma ponta da cidade, na Zona Oeste, os filhos adolescentes da vendedora Vania Krepskhy, 35 anos, são proibidos de sair a pé na frente do condomínio onde moram. Do outro lado de Londrina, na Zona Leste, a jovem mãe Luciana Nagaoka, 23 anos, faz o mesmo com a filha de apenas quatro anos. ''Eu tenho medo porque aqui os carros correm muito. Eu já ensinei que ela não pode sair de casa sozinha. Nem de bicicleta, na calçada, eu deixo ela brincar.''
Tanto uma quanto a outra moram em ruas que servem de caminho alternativo para motoristas que querem evitar avenidas mais largas e de trânsito lento em horários de pico. Isto faz com que as vias onde residem se tornem movimentadas e cada dia mais perigosas, conforme afirmam. ''O filho da minha vizinha já foi atropelado no portão do condomínio. Eu mesma já quase fui atropelada por um carro que estava correndo demais'', indigna-se Vania, que mora na rua Benjamin Franklin, no Jardim Jamaica.
Segundo conta, o movimento da rua aumentou bastante quando, alguns metros à frente, novas ruas foram abertas facilitando o acesso a bairros da região ao centro da cidade. ''Antes aqui era bem sossegado. Só que agora as pessoas não respeitam mais nada. Eu não permito mesmo que meus filhos saiam a pé. Se tiverem que ir à mercearia, que fica em frente ao prédio, eu fico falando para eles olharem, olharem, olharem para os dois lados e só atravessar quando não tiver nenhum carro na rua.''
Tanto medo pode parecer exagero para alguns, mas é justificável para o presidente da Associação de Moradores do Jardim Jamaica - e morador do mesmo condomínio de Vania -, Almerindo Ferreira da Silva, de 53 anos. ''A gente se sente ameaçado de sair de casa. Toda vez que uma criança ou idoso tem que sair do prédio a gente fica com medo''. Para complicar ainda mais, em frente ao local onde mora há um ponto de ônibus, um carrinho de lanche, um orfanato e, na esquina, uma igreja. ''Em horário de pico fica difícil até de sair de casa.''
Silva assegura que já encaminhou pedidos de solução para a Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), mas nunca recebeu retorno. ''Já deve fazer mais de dois anos. Nunca tive retorno. Nem sobre a sinalização da rua, nem sobre a falta de calçadas.''
Na Zona Leste, Jardim Novo Antares, a universitária Luciana também se sente insegura. ''Normalmente são jovens que dirigem correndo. Nos finais de semana, muitos passam bêbados e à noite todos os carros passam correndo muito.'' De acordo com o diretor de Trânsito da CMTU, Álvaro Grotti Júnior, a descrição da estudante coincide com dados nacionais sobre o perfil do motorista que se envolve em acidentes. ''Pesquisas apontam que homens de 25 a 40 anos são os que mais se envolvem em complicações no trânsito. Acredito que seja porque nesta faixa etária a pessoa já tem mais independência, o carro é próprio e então se sente mais confiante.''
Conforme explica, situações como a dos bairros visitados pela reportagem da FOLHA acontecem em outros pontos da cidade e são resultado do crescimento urbano. ''Isso é natural que aconteça e o Ippul (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina) faz estudos para que o trânsito seja controlado. Nós fazemos a sinalização com placas, orientação horizontal e vertical, só que, infelizmente, as pessoas não respeitam.''
Grotti Jr. completa que, por determinação do Código de Trânsito Brasileiro, está proibida a construção de qualquer ondulação transverssal nas ruas, como os antigos quebra-molas. ''O código entende que estes obstáculos atrapalham e punem motoristas responsáveis e ônibus urbanos. Então recomendam apenas a sinalização.''
Em relação aos pedidos de soluções, como os feitos por Silva, ele afirma que recebe vários por mês e que todos são avaliados, só que alguns deles -''como deve ser o caso do Jardim Jamaica'' - levam mais tempo para ser respondidos, porque passam por avaliação dos técnicos do Ippul.

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