O aumento da velocidade no tráfego de veículos em Londrina e Maringá gerou um salto na gravidade dos acidentes e aproximou o perfil das colisões em ruas e avenidas ao de rodovias. O alerta é feito por médicos especializados no atendimento a traumas de trânsito.
As estatísticas oficiais não registram a velocidade dos veículos no momento do acidente, mas dados isolados confirmam a preocupação dos médicos: em Londrina já foram registrados 53 capotamentos de veículos neste ano; e em Maringá, em 2006, aconteceram 21 capotamentos. Até pouco tempo atrás, segundo os médicos, os capotamentos eram praticamente restritos às estradas.
O médico do Siate de Londrina, Marco Antônio Buges, vai direto ao ponto. ''Há alguns anos, a diferença entre os acidentes nas cidades e nas estradas era claro. Hoje, como a velocidade aumentou muito nas ruas, os acidentes já são semelhantes aos de rodovias. Isso pode ser visto pelo grau elevado de deformação dos veículos, pelo crescimento de colisões em que o ocupante é atirado para fora do carro, além do aumento das mortes e lesões típicas de estrada.'' Nesses casos estão a perda de capacidade física e de locomoção, comprometimento mental, amputações, entre outros.
De acordo com Buges, mesmo que o número de acidentes se mantivesse no mesmo patamar, as mortes e traumas seriam menores se a velocidade dos veículos fosse inferior.
O chefe do Pronto Socorro do Hospital Universitário de Maringá, Almir Germano, disse que a situação é comparável à de Londrina. ''Em relação à gravidade das colisões veiculares, o fator que mais compromete é a velocidade. A gente tem percebido que mesmo as pessoas contidas nos veículos pelo cinto de segurança passaram a apresentar lesões maiores, entre traumas toráxicos e abdominais.'' Nesses casos, sem o equipamento de segurança, o médico diz que haveria ''morte na certa''. No HU de Maringá, que é um hospital de alta complexidade, aproximadamente 20% dos leitos de UTI são ocupados por vítimas do trânsito.
Para Germano, o excesso de velocidade não está presente apenas quando o velocímetro ultrapassa os 80 km/h. ''Por incrível que pareça, a única coisa que as pessoas devem fazer é respeitar a velocidade indicada na sinalização. Se tem uma plaquinha dizendo 40 km/h, não é 60 km/h, ou 80 km/h. É 40 km/h. Acima do permitido, é sempre alta velocidade'', afirmou.
Dados extra-oficiais da secretaria dos Transportes de Maringá (Setran) indicam que aproximadamente 45% dos acidentes fatais são ocasionados por excesso de velocidade. ''Não é uma informação fechada porque não há levantamento in loco suficiente, mas esse é o padrão com o qual trabalhamos. A gente tem percebido um aumento grande de pessoas trafegando acima de 80 km/h na cidade. Durante blitz com radar móvel nós já flagramos um motorista a 120 km/h, às 9 horas da manhã, dentro da cidade'', contou.
No Hospital Universitário de Londrina, 208 pessoas já deram entrada na UTI em razão de colisões no trânsito este ano. O chefe do Pronto-Socorro do HU, Antônio César Marson, afirmou que o excesso de velocidade também alcança os motociclistas - hoje as maiores vítimas do trânsito. ''Quando se fala em mortalidade, a moto é responsável por mais de 50% do que atendemos. A gente não tem dados estatísticos, mas a grande maioria destes acidentes está diretamente relacionada à velocidade''.
O médico explicou que em colisões de alto impacto, até mesmo o capacete, que é artigo indispensável de segurança, não consegue proteger completamento o motoqueiro. ''Mesmo com esse acessório a pessoa pode ter trauma crânio-encefálico''. Nestes casos, muitos pacientes morrem ou passam a ter vida vegetativa.
A causa imediata do trauma de trânsito é a chamada desaceleração do corpo, ou seja, a passagem de uma velocidade de 80km/h, por exemplo, para 0 km/h, numa fração de segundo. ''Resumidamente, o acidente de trânsito tem três momentos. O primeiro ocorre quando o veículo atinge outro objeto. O segundo é quando o ocupante bate no veículo, por exemplo, no painel ou direção. O terceiro é quando os órgãos internos da pessoa colidem entre si, ou com a parede do organismo. Nesse momento é que podem ocorrer os rompimentos de ligamentos e dos órgãos'', explicou o chefe do PS do HU.

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