Velhas teclas resistem ao computador
Velhas teclas resistem ao computador
Poucas oficinas de conserto de máquinas conseguem hoje alguma client ela. Elas tiveram de diversificar as atividades para sobreviver
Cristine Pieske
Leandro Taques
SaudosismoWalter Saborido mantém, com muito carinho, exemplares raros de máquinas de escreverA barulheira das máquinas de escrever, que infernizava escritórios, repartições públicas e redações de jornais, ainda pode ser ouvido nas poucas lojas e oficinas que sobreviveram à invasão feroz dos computadores. Saudosos dos tempos em que as mercadorias eram disputadas pelos clientes e que as oficinas viviam lotadas, poucos profissionais insistem em continuar exercitando uma profissão antes tão necessária e hoje já quase extinta. Para poder continuar no mercado, os profissionais precisaram diversificar os serviços para poder manter o prazer de ouvir um teclado manual em funcionamento.
Em Curitiba, a maioria das lojas e oficinas mudou de ramo, ou precisou reduzir sua estrutura ao mínimo necessário. É o caso da Clássica Comércio e Assistência Técnica, fundada há mais de 20 anos por Emanuel Santos, 45 anos. Hoje, ela se resume a uma oficina mantida nos fundos da sua casa. Há três anos, Santos demitiu os dois funcionários e fechou a loja central. Ele diz que a concorrência da informática minou boa parte dos seus negócios, forçando a inclusão de máquinas calculadoras no rol dos equipamentos que conserta. Hoje, o número de calculadoras que tenho para consertar é quase dez vezes maior que a quantidade de máquinas de escrever, afirma.
Atualmente, a maior parte da clientela de Santos é composta por pequenos escritórios e cartórios, que ainda mantêm algumas máquinas de escrever entre tantos computadores modernos. Chega uma hora em que todo mundo precisa escrever alguma coisinha simples, preencher um fichário ou completar um relatório. Daí, nada melhor que uma boa máquina de escrever, afirma. Outros clientes da oficina são alguns arquitetos e decoradores, que tentam recuperar a beleza e o funcionamento das máquinas para enfeitar vitrines. Para alguns, as máquinas de escrever já são peças de museu, afirma.
O apego ao passado glorioso dos equipamentos também faz o comerciante aposentado Walter Saborido, 75 anos, manter alguns modelos raros de máquinas de escrever guardados com carinho. Proprietário de uma loja tradicional de equipamentos de escritório em Londrina, que funcionou durante quase 20 anos, ele é mais um dos que assistiram com receio a chegada dos computadores e que tiveram seu campo de trabalho reduzido.Sinto saudade do barulho feito pelas máquinas, mas a evolução dos equipamentos é inevitável, afirma.
Até hoje, Saborido guarda com cuidado especial a máquina alemã Gundka, fabricada em 1924, e uma AEG Mignon, de 1916, que utiliza um cilindro para imprimir as letras. Profundo conhecedor da história das máquinas de escrever, Saborido diz que foi este cilindro que deu origem ao sistema utilizado mais tarde nas máquinas produzidas pela IBM. Feitas em ferro, as máquinas ainda funcionam e estão sendo conservadas sob o olhar cuidadoso de seu dono. Vou deixá-las para meus filhos, como se fossem uma herança, diz o saudoso ex-vendedor de máquinas de escrever.





