Desde que um tal Jeca Tatu andou pela literatura ensinando a população brasileira a combater a doença símbolo do atraso e da pobreza - a ancilostomose, popularmente conhecida por amarelão -, muitos avanços na prevenção de doenças ligadas à falta de saneamento básico mudaram bastante a realidade do País.
No mapa da desigualdade social no Brasil, que expõe a população a doenças como o amarelão (infecção provocada por vermes), o saneamento básico, com água tratada e construção de rede de esgoto, pode se aliar a outros fatores, entre os quais o aleitamento materno e a medicina preventiva, para espantar os vilões da saúde.
Porém, apesar dos esforços dos sanitaristas, ainda tem muita gente andando por aí com a cara do velho Jeca, de olhos amarelos.
Em Londrina, a situação não é diferente. Verminoses, diarréia, esquistossomose, hepatite''A'', entre outras doenças, afetam a população. Dos 450 mil habitantes do município, 86 mil moram em áreas consideradas de risco social pela Vigilância Sanitária. Cerca de 20 mil são ribeirinhos de alguns dos 86 mananciais da cidade. Essa população representa 1/4 de habitantes em áreas de riscos, que está sujeita às enfermidades que poderiam ser evitadas com saneamento básico.
Noventa e nove por cento da população londrinense é abastecida com água tratada e 67% dos habitantes contam com coleta de esgoto, sendo que 100% dos resíduos coletados recebem tratamento. Porém, 8 mil moradores que têm a rede coletora na porta de casa ainda não fizeram a ligação.
A Sanepar está entregando 82,7 quilômetros de rede coletora em 21 bairros, (serão 27 em 2005), e vistoriando 60 mil residências para verificar a existência de ligações de esgoto irregulares, que acabam levando lixo para dentro dos ribeirões e córregos.
Enquanto isso, água podre passa na porta dos barracos de uma população ribeirinha do Santa Fé e Monte Cristo (Zona Leste), que convive com o mal cheiro do Água das Pedras e os parasitas que navegam através do córrego até o intestino dos moradores.
''São pessoas que vieram de áreas com esquistossomose e trouxeram no intestino esse verme. As condições precárias de saneamento dessa população fechou o ciclo da doença na região'', destaca a médica pediatra e sanitarista, Josemari Sawczuk de Arruda Campos, diretora de Epidemiologia e Saúde Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde.
A diretora lembra que desde 2001, através de uma parceria com a Universidade Estadual de Londrina, é feita uma pesquisa constante para identificar as regiões onde existem e quais os tipos de caramujos. A universidade empresta os laboratórios para a realização dos exames e o município cede os profissionais de saúde que coletam o material.
De 2001 a 2002, na região cortada pelos córregos Bom Retiro e Água das Pedras, foram identificados 11 e 16 casos de esquistossomose, respectivamente. Já no afluente do Água das Pedras, o córrego Londrina, houve a maior incidência, com 19 casos da doença, conhecida como barriga d'água.
As águas do Bom Retiro, que passam pela favela da Vila Marízia, levam o caramujo também para a área central.
O combate ao parasita que se instala nas veias do intestino, provocando anemia e perda de líquido do sangue, é simples. Além da prevenção com saneamento básico e a conscientização da população, os infectados são tratados com uma dose supervisionada de remédio.
É interessante notar que o caramujo hospedeiro do parasita transmissor da esquistossomose aparece no Córrego da Mata (Zona Oeste). Porém, a doença, com estreita ligação sócio-econômica e cultural, não infesta a população próxima, com maior poder aquisitivo.
Em 2003, foram registrados 28 casos de esquistossomose em Londrina, sendo 15 contraídos no próprio município e 13 importados. Faltando poucos dias para terminar 2004, a Secretaria Municipal de Saúde identificou 37 casos de barriga d'água. Nove a mais que o ano passado.

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