Vasos capilares a partir de células-tronco
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sexta-feira, 01 de junho de 2012
Rubens Chueire Jr. <br> <br> Equipe da Folha 
Curitiba - Pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) conseguiram criar, em laboratório, vasos capilares a partir de células progenitoras endoteliais extraídas das células-tronco de sangue do cordão umbilical. O estudo, ainda em fase experimental, pode trazer a cura para doenças isquêmicas, principalmente dos membros inferiores e de pessoas que sofrem de diabetes e possuem problemas de circulação.
O trabalho envolve a retirada das células mononucleares de sangue do cordão umbilical, das quais são separadas as células-tronco. Depois, são extraídas as células progenitoras endoteliais, que possuem a capacidade de se transformarem em vários tipos de tecidos. Os trabalhos começaram há seis anos.
A equipe, composta por 16 pesquisadores, optou pelo sangue do cordão umbilical porque a quantidade de células-tronco na medula óssea (0,05%) ou no sangue circulante (0,01%), por exemplo, são extremamente menores. O sangue do cordão umbilical possui aproximadamente 0,6% de células progenitoras endoteliais. ''A quantidade é pouca, por isso a necessidade de multiplicá-las por meio do cultivo laboratorial'', explicou o cardiologista Paulo Brofman, coordenador do Núcleo de Terapia Celular (NTC) da PUC-PR.
Com a mistura de 13 indutores de multiplicação celular, os pesquisadores conseguiram multiplicar em até 70 vezes as células, para então promover a sua diferenciação para células endoteliais, que são as formadoras dos vasos.
Animadores
Os testes foram feitos em ratos e apresentaram resultados animadores. Os animais foram infartados e receberam injeções de células no coração. Depois, foram separados em três grupos: o controle, que não recebeu nenhuma célula; o grupo A, que recebeu as células que foram expandidas em laboratório; e o grupo B, que recebeu apenas as células purificadas, ou seja, que não foram expandidas.
No grupo controle, após um mês, houve a piora da fração de ejeção do sangue do coração para os outros órgãos de 25,99% para 20,46%, sendo que um coração de qualidade apresenta índice superior a 40%. No grupo B, houve melhora, de 20,75% para 27%. Já no grupo A, a melhora foi de 22,51% para 32,67%.
''Além disso, injetamos uma sonda que somente se mistura com células humanas dentro do núcleo da célula principal. Desta forma pudemos comprovar que aquelas células presentes no rato saíram de sangue humano e não uma célula comum do animal. Além disso, estas células modificadas criaram uma quantidade muito grande de vasos'', confirmou o médico.
Continuidade
A próxima fase da pesquisa é o início dos testes em humanos. A pesquisa já foi submetida ao Comitê de Ética da instituição. Em seguida o Comitê Nacional ligado ao Ministério da Saúde (MS) deve analisar o pedido de aprovação para iniciar a seleção de voluntários. O foco desta fase do estudo será pacientes com isquemia nos membros inferiores, que não têm mais opção de tratamento.
''As células com as quais estamos trabalhando foram obtidas por meio do sangue do cordão umbilical, que tem uma linhagem muito típica para formação de novos vasos. Então imagine um paciente que tem que amputar um membro inferior, por exemplo, por isquemia, e que não tenha outra opção terapêutica. Nós vamos colher as células do sangue de outro paciente, cultivar em laboratório, para depois implantar no membro do portador da doença, com o claro benefício de formar novos vasos. Com isso, ele vai voltar a ter circulação, com boa probabilidade de salvar este membro'', destacou Brofman.
O médico destaca que o mesmo raciocínio serve para pacientes com infarte do miocárdio. Ele explica que o coração é uma bomba de sangue e o músculo cardíaco é alimentado por oxigênio que é levado pelo sangue até as artérias coronárias. Por diversos fatores, como má-circulação, pressão alta e consumo de cigarro, começa a se formar um depósito de gordura no vaso que acaba se entupindo.
''Se tivermos a possibilidade de injetarmos células que criem novos vasos ou renegerem o músculo que fibrosou pelo entupimento, isto representa uma grande esperança para recuperarmos estes pacientes também'', reforçou.
Além do reconhecimento internacional, o estudo já recebeu diversos prêmios nacionais. O último ocorreu no dia 14 de abril, no 39º Congresso Brasileiro de Cirurgia Cardiovascular, em Maceió (AL).
O médico, entretanto, alerta que é preciso ter cautela em relação à divulgação dos resultados. ''A perspectiva de ter essa nova terapia celular é extremamente importante, mas é preciso cautela. Estamos um pouco distantes de oferecer isso em larga escala para a população. Todo o tratamento com células-tronco no País é considerado experimental. Então, para que o procedimento possa ser utilizado em pacientes humanos, a gente precisa fazer um protocolo com critérios rígidos de seleção'', explicou Brofman.



