A missa afro-brasileira é, para padre Dirceu Fumagalli, uma forma de colocar em prática o ‘‘diálogo religioso’’. Respeitar, diz, não é apenas permitir mas, na medida do possível ‘‘fazer junto’’. Ele explica que a iniciativa nasceu em 86, na igreja do Novo Amparo (zona leste) onde ele era pároco. Desde então ele já realizou várias missas afro-brasileiras com o apoio das comunidades. Em 91 a iniciativa ganhou a parceria do Templo Vovó Cambinda de Angola Ilê Axé Iansã (Jardim Sabará - zona oeste).
No sábado à noite, ao mesmo tempo em que acontecia a missa no Caic Dolly Jess Torresin (zona sul), outras missas afro-brasileiras foram realizadas em vários pontos da cidade. ‘‘Não há disputa do sagrado entre as duas religiões. A missa afro-brasileira é apenas uma confraternização e a mostra de que, perante Deus, somos todos iguais’’, frisa. Fumagalli analisa que ainda existe muito preconceito contra o candomblé e religiões africanas. ‘‘Infelizmente não é uma questão filosófica, mas um preconceito racial’’, acredita.
Questionado sobre as críticas da Igreja Católica ao sincretismo religioso ele lembrou que a igreja católica tem sua quota de responsabilidade pelo sistema escravagista e se preocupou apenas em batizar os negros que desembarcavam no porto. ‘‘ Não houve nenhum trabalho de evangelização ou de defesa de seus direitos como cristãos. É impossível ignorar a influência desse povo e sua importância para nossa cultura e religião’’, defende.
‘‘As religiões são apenas caminhos diferentes para se chegar a um mesmo Deus’’, afirma Rosana de Souza, mais conhecida como Ya Lorixá Balignan, mãe de santo há 27 anos. Ela é dona do Templo Vovó Cambinda de Angola Ilê Axé Iansã, que apóia a realização das missas afro-brasileiras. Rosana de Souza explica que cada terreiro é diferente do outro e é regido por normas próprias. ‘‘Na minha casa, por exemplo, só entra quem tem humildade e amor ao próximo’’, afirma, definindo a si própria como sendo da ala mais moderada do candomblé.
O candomblé, diz, foi a forma encontrada pelos negros de louvar seus deuses. ‘‘Muitas pessoas misturam as coisas, confundem com a prática de magia negra. Mas isto só acontece porque não conhecem nossos princípios’’, diz. (C.B.)

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