Vandalismo em cemitério choca moradores de Ibiporã
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quinta-feira, 30 de outubro de 1997
Paulo Briguet 
Londrina
Mário CesarEstragos na madrugadaTúmulos foram depredados e uma sepultura foi violada, em Ibiporã: ossos ficaram espalhados por uma das ruas do cemitérioPor quê?
A pergunta foi repetida ontem pelos moradores de uma cidade revoltada com um ato de vandalismo. O cemitério de Ibiporã, a 14 quilômetros de Londrina, amanheceu com 49 túmulos depredados. Pelo menos duas sepulturas foram violadas. Um cadáver foi tirado do túmulo. Os invasores também incendiaram a sala da recepção do cemitério, que ficou totalmente destruída pelo fogo.
Às vésperas do Dia de Finados, a depredação chocou as pessoas em Ibiporã. Em 12 anos de profissão, o coveiro José Francisco garante que nunca viu algo parecido. Mas há cinco meses, ele lembra, houve uma violação de túmulo no cemitério da cidade. Só que agora foi um estrago maior, um estrago danado. O povo tá bravo, disse José Francisco. Pouco antes de fazer essa declaração, o coveiro havia recolhido ossos que ficaram espalhados pelo chão de uma das ruas do cemitério. Os coveiros tiveram muito trabalho para recuperar, pelo menos, os túmulos mais avariados.
Diversos parentes e amigos de pessoas sepultadas foram ontem ao cemitério para conferir os danos. A depredação passou perto do túmulo onde estão enterrados o marido e o sogro da costureira Helena Milani. As sepulturas vizinhas tiveram placas de mármore quebradas. Quando soube do que tinha acontecido, vim correndo para cá. A cidade inteira está comentando. Quem fez essa maldade? E com que intenção?
A dona-de-casa Ana Aparecida Figueiredo mostrava revolta com o que fizeram no túmulo de seu marido, o motorista Osvaldo Figueiredo. Os invasores arrancaram a placa com o nome e as datas de nascimento e morte. Uma das bordas da sepultura ficou trincada por golpes de objeto pesado. Osvaldo foi morto há dois anos e, segundo a esposa, o crime ficou insolúvel. Agora acontece uma coisa dessas, disse Ana Aparecida. Com a ajuda de familiares e amigos, ela tentava limpar o túmulo, bastante modesto. A justiça não veio para o meu marido, mas tem que vir para os vândalos que fizeram isso.
Abandonada numa das ruas do cemitério, estava uma das possíveis armas do crime: uma placa de trânsito arrancada. O delegado de Ibiporã, Airton Simplício dos Santos, chegou ao local às cinco e meia da manhã e encontrou um panorama desolador. Parece que passou um vendaval por aqui.
Airton Simplício não pode afirmar com certeza, mas trabalha com algumas hipóteses para explicar o crime. Ele está convencido de que o ato de vandalismo foi feito em grupo, o que se deduz pela quantidade dos estragos. O delegado diz que o local é bastante frequentado por usuários de drogas, sobretudo à noite.
Não está afastada a tese de motivação política para o crime. Pode haver a intenção de desestabilizar o poder público, até pela proximidade com o Dia de Finados, comenta Airton Simplício.
Uma série de condições facilitou a ação dos vândalos: não há guardas noturnos no local, o cemitério fica ao lado de uma mata, os muros são baixos e, não por acaso, três telefones públicos foram quebrados antes do crime. Agiram assim para evitar que alguém chamasse a polícia. Segundo o delegado, os responsáveis podem responder a crimes de vilipêndio a cadáver, violação de sepultura e danos ao patrimônio público. Mas o delegado concorda que o maior dano não está previsto no Código Penal: Essa estupidez mexeu com os sentimentos da população e o respeito aos mortos.
Pessoas presentes ao local criticaram a falta de segurança no cemitério. Muita gente vem usar droga aqui no cemitério, e ninguém faz nada. O lugar não tem nenhuma segurança, contou a inspetora escolar Elizabeth Alvarenga, que visita o cemitério regularmente. Outro dia tentaram roubar minha mobilete quando eu visitava o túmulo da minha mãe. Além do cadáver que foi violado há algum tempo, já teve gente que pichou túmulos.
Na manhã de ontem, a trabalhadora rural Maria Elizete de Lima veio por acaso visitar o cemitério. Ela não estava sabendo do vandalismo. Elizete ficou muito chateada com a situação que encontrou. Enquanto acompanhava o trabalho dos coveiros e dos familiares que tentavam consertar os danos, ela fez uma indagação que parece resumir a perplexidade em Ibiporã: Por que não deixaram os mortos em paz?


